Sunday, 15 April 2018

DO FACEBOOK, DAS FAKENEWS E DA DIGITALIZAÇÃO


DO FACEBOOK, DAS FAKENEWS  E DA DIGITALIZAÇÃO

Fora da prisão do ex-Presidente Lula, no cenário nacional, e mais os julgamentos nos tribunais superiores de justiça, além de um sem-número de candidatos à presidência do Brasil (incrível, se o país está tão ruim, por que tantos querem ser candidatos e por que já não ajudaram nestas dezenas de anos a consertar a situação?), e as declarações de sábios consultores dos candidatos sobre como vão refazer tudo, vieram notícias dos Estados Unidos que vale a pena comentar. 

O ataque aos alvos sírios pelas forças dos Estados Unidos, Grã Bretanha e França é um desses fatos. Mas, outro que nos afeta muito é o depoimento do fundador e principal executivo, de 33 anos, do Facebook, Mark Zuckenberg, no Congresso norte-americano. O questionamento de dois dias do bilionário ocorreu em função do vazamento de dados pessoais de 58 milhões de usuários do Facebook para uma empresa britânica, Cambridge Analytics, a qual, após uma análise super-sofisticada, vendeu informações a preço de ouro para o pessoal da campanha do Trump, que as usou com competência.

É muito importante lembrar que, com o avanço de tecnologias digitais e a  facilidades de seu uso, acabou uma boa parte da nossa privacidade. Com a facilidade de comunicação e a alegria de falar com as pessoas, informando sobre as nossas vida, damos informações que seriam sigilosas. E com o uso de avançados sistemas de computação (em especial, o uso de algoritmos) esses dados analisados servem para milhares de finalidades comerciais, políticas, de segurança e até de educação.

Na verdade, isso não tem nada de novo na história da humanidade. Na década de 1930, a gigante norte-americana de tecnologia IBM forneceu ao governo da Alemanha, já dirigida por Hitler, a de cartões perfurados Holerite, que permitiram o recadastramento da população alemã com detalhes (tais como religião, raça, opinião política, etc.), que bem alimentou o holocausto que ocorreu em seguida. Com precisão alemã e tecnologia norte-americana, assassinaram, entre outros, 6 milhões de judeus.

Hoje não sabemos bem quem usa quais tecnologias para fins de domínio político. Não tenho nenhuma dúvida de que o Brasil, atrasado no uso de tecnologias digitais para avançar economicamente e socialmente, tenha sido, através de operadores políticos, usuário das mais avançadas tecnologias para bem dos candidatos, partidos e usurpadores do poder público. Ou seja, o uso para o mal, sem controle da sociedade e do governo, das tecnologias digitais, supera o do bem comum.

Portanto, não nos surpreendamos nestas eleições, no ambiente em que vivemos de falta de regulamentação, que o grande instrumento para ganhar as eleições sejam armas ocultas, como aconteceu em outros países, recentemente, de tecnologia digital. Mais fakenews, notícias falsas, mais ataques cirúrgicos aos nossos  sentimentos, e menos privacidade. Quem sabe se a lembrança de 1933 e da experiência da época não esteja  tão distante da nossa realidade atual.


Monday, 9 April 2018

DOS RUMOS DE MINAS


DOS RUMOS DE MINAS

Quo vadis Minas? Para onde vai Minas? Minas que são tantas, mas os mineiros de norte a sul, de leste a oeste, são sempre mineiros. Com sua sabedoria simples porém complexa, com sua brasiliaridade inigualável, com seu espirito cívico insuperável. Mas, onde estão os rumos desse poderoso, rico em minérios, mas sobre tudo rico em sua gente, estado da liberdade e dos anseios por um Brasil e um Minas melhor?

A janela para se rever e estudar essa realidade, e mais, de definir o futuro de Minas, é de alguns meses, antes que as urnas se fechem no segundo turno das eleições, em outubro. Até lá, a sociedade civil e os cidadãos mineiros têm chance de um bom debate sobre os rumos da cidadania, economia, segurança, educação, saúde e mais todos os itens da nossa vida cotidiana e do nosso futuro.

Um número sem fim de candidatos para todos os cargos em  disputa vai fazer as suas propostas para os eleitores.  Essas propostas serão baseadas nas pesquisas  e proposições da população, mas são propostas de candidatos.  Interessante, pelo menos por ora, que as propostas da sociedade civil para os candidatos ainda não tenham aparecido. Discutem-se os nomes, as etiquetas que damos a eles, mas ainda não vimos os debates, em especial no meio empresarial, sobre os rumos da nossa sociedade.

A próxima eleição não é uma eleição  qualquer. É a eleição que deve fazer a mudança de um modelo de política corrupto, falido e que nos leva ao abismo, para uma democracia de economia de mercado, pujante,  com melhores índices de desenvolvimento humano e com segurança melhor para o cidadão. Das escolhas nas urnas vai depender o modelo de sociedade que fará as mudanças necessárias para que a sociedade se torne mais equitativa e que tenhamos melhor desenvolvimento.

E para isso os empresários, como também os trabalhadores e outros segmentos, precisam ter propostas para os candidatos. E antes de mais nada devem ter espírito critico para avaliar não só o trabalho dos que já estão na política, como também suas idéias, seus ideais, seus compromissos com o eleitor. E isso quer dizer com a sociedade como um todo. Se desta vez escolhermos como escolhemos no passado, o que nos levou a esta crise difícil de ser superada, o Brasil e Minas, como seu ponto de equilíbrio, politico, mergulharão numa crise ainda maior. Em um mundo em transformações rápidas pela tecnologia isso ainda é mais grave.

Há potencial de crescimento, e há, sem dúvida, capital ético e moral para ser explorado, mas é preciso que as entidades empresariais, mais bem equipadas do que os  demais atores políticos, assumam o seu papel de parceiras da sociedade e criem condições de mudanças. Os tais de liberal, novo, diferente, precisam ser traduzidos em conceitos claros para a construção de uma sociedade nova, mais ética, com valores morais claros, e com metas de desenvolvimento para todos. 

Esta é  a oportunidade. O bem mais precioso da sociedade democrática é o voto. Mas, não o voto  submisso,  do enganado. O voto soberano do cidadão que sabe por que votou no candidato cujas propostas garantem uma vida melhor para todos.

Stefan Salej

Sunday, 8 April 2018

DO CÉSAR NU. E NÓS TAMBÉM.


DO CÉSAR NU. E NÓS TAMBÉM.

Independentemente do juízo de cada um, o processo de impeachment de Dilma Rousseff e os processos de investigação e judiciais, dos quais o maior e mais conhecido é a Lava Jato, confirmam mesmo que cada um tem sua opinião, que o Brasil está equilibrando suas mazelas históricas de corrupção e irresponsabilidade de gestão pública, com o uso de meios constitucionais, instrumentos legais e jurídicos. A prisão recente do ex-Presidente da República Lula demonstra isso com clareza e também que não é só o César que está nu, mas com ele o ficamos também todos nós. Lula não se elegeu sozinho, o partido dos trabalhadores  não governou por 13 anos sozinho e a corruptização do país não é um privilegio de uma pessoa ou de um partido político.

O processo de Lula, que é um processo criminal, mas com consequências políticas, também trouxe à tona o funcionamento de nosso sistema judiciário. O show, dos últimos dias, televisionado, das sessões do STF, coloca mais uma vez (já vimos isso nos processo do Mensalão) com brutalidade, ao vivo, quem são e o que pensam e como agem os ministros da suprema corte da nação.  Independentemente da erudição, os comportamentos pessoais de alguns não são recomendados para menores, porque senão vamos ouvir dos nossos filhos e netos que eles não precisam nem fazer dever de casa porque ou estão cansados ou têm que ir para uma festa de amigos. Alias, parece que um ministro vive mais em Portugal do que em Brasília.

Também a encenação da entrega de Lula para a polícia federal, por sinal muito bem ensaiada, leva claramente à conclusão de que o Brasil tem condenados e criminosos de vários quilates. Os que têm dinheiro e podem usar um sistema judiciário com advogados caros que os protegem, inclusive na hora da prisão e demais, ou o porteiro do meu prédio, pai de cinco filhos, consertador de telefones celulares nas horas vagas, pego com um telefone roubado, que, como 40% da população carcerária brasileira, está na prisão sem julgamento e sem chance de ter qualquer emprego quando sair.

A prisão do Lula deve nos levar a uma reflexão, tardia,  muito tardia, de alianças políticas que se fazem no país para governar. Lula liderou um partido que teve sim apoio de empresários. Não só do seu vice-presidente, mas de vários ministros, sem falar nas entidades de classe como a CNI. Muitos, mas muitos deles mesmo, ganharam cargos,  muito dinheiro e escaparam de todos  os processos. Muitos continuam bajulando  e participando do governo  Temer (que nada tem a ver, pelo que ele diz, com os governos do PT). Há muitos processos em curso no judiciário, nos órgãos de investigação (inclusive até hoje o não concluído processo sobre uso de recursos públicos por uma fundação, mais de 300 milhões de reais, que envolveria dirigentes da principal entidade industrial mineira) que ou dormem, ou desaparecem, ou cuja vez ainda não chegou.

Colocar o Brasil a limpo requer mudança de atitudes, e em especial uma revisão de políticas de alianças de empresários com o poder público e os políticos. Como disse um dirigente da FIESP: por aqui não foram homenageados e nem passaram os Eikes da vida e nem os envolvidos na Lava Jato. Simples, no pássaro, parafraseando a líder comunista espanhola.

Condenar  um ex-presidente da República pode ser o início do fim da impunidade, mas de jeito nenhum é  por si só, o fim da corrupção e o início de mudanças no país.

Sunday, 1 April 2018

DA MINAS DIGITAL


DA MINAS DIGITAL

A moda agora é ser digital. Eventos e mais eventos estão acontecendo, com ilustres gringos despejando o seu conhecimento sobre o nosso subdesenvolvimento e repetindo o que você acha com facilidade no Google, desde que você seja alfabetizado o suficiente para encontrar alguma coisa . Mas o que é ser digital? 

As definições variam, mas o que os organizadores do próximo fórum sobre digitalização  que o governo do estado está organizando quer dizer vamos entrar no século 21 com melhor utilização das tecnologias disponíveis. E essas tecnologias não são só digitais, mas um conjunto de tecnologias, entre elas blockchain, internet das coisas, uso intensivo de logaritmos, big data, analítica etc.etc. Um evento com gastos milionários, os eventos servem para que o dinheiro público se expanda para a área de interesses privados, pode chamar atenção pelo estado em que vivemos, diga-se de passagem, miserável na área do uso de tecnologias, mas como não há um consenso da sociedade para avançar em uso de tecnologias, de pouco adianta. E muito menos na véspera da mudança de comando na área de tecnologia do Estado, devido à proximidade de eleições.

Minas tem o maior centro de pesquisa da Google no continente latino-americano. De fazer inveja. Tem inúmeras iniciativas com movimento de  start ups, entre elas a São Pedro Valley, em Belo Horizonte, algumas bem sucedidas e outras bem fracassadas,  como as de uma entidade industrial. Está na moda o movimento de start ups, makers e não sei mais o quê. Mas, esquecemos que, há 20 anos, a  Escola Técnica Gerencial  do SEBRAE Minas forma empreendedores que ganham com sua empresa simulada prêmios internacionais e que 85 % desses alunos se tornam empresários bem sucedidos. Então, o problema não é fazer um evento mas saber o que fazer em um longo período, de forma consistente e que ultrapasse uma primavera eleitoral.

Minas, como todos, anda bem atrasada e falar em digitalização só tem sentido se houver um projeto consensual da sociedade mineira para que o uso das tecnologias disponíveis  e as a serem criadas no futuro, melhore a qualidade de vida dos seus cidadãos e a competitividade de sua economia. 

E, para começar, enquanto a FAPESP (a irmã da FAPEMIG) treinou 200 start ups  em dois  anos e as transformou em criadores de emprego e tecnologia, Minas faz um oba-oba, gasta dinheiro e as  start ups criaram quantos empregos mesmo? A CEMIG e a COPASA são campeãs e líderes de uso de tecnologia de big data , smart grid etc.? Quantas empresas mineiras ( um belo exemplo por incrível que pareça é nosso avanço na área médica) estão em nível mundial de uso de tecnologia, por exemplo em big data?

Mas, tudo começa com melhor ensino de matemática (ai vai minha homenagem aos professores Mario de Oliveira, Judice e Clemencau Saliba) nas escolas públicas.  Sem esquecermos   da informática e engenharia. Há um movimento de melhoria desse ensino, mas ainda tímido.

Não por último, a pergunta é, se temos talentos mas não temos planos, porque não trazer esses talentos para colocar Minas em primeiro lugar. Como se pode fazer um evento desses e esquecer que o talento mais respeitado no Silicon Valley é um mineiro (foi VP da Google na área de Android e hoje preside a Oculus) e nunca foi consultado para ajudar Minas a  crescer. Como tantos outros.  É a nossa chance de avançar, mas com consistência e não com shows e gastos, sem saber o que se vai fazer no dia seguinte.

Sunday, 18 March 2018

DA ÁGUA E DAS ÁGUAS


DA ÁGUA E DAS ÁGUAS 

Depois das chuvas que caíram em Belo Horizonte e Sul de  Minas,  um verdadeiro dilúvio, falar em água e da sua falta, como também da sua importância, parece paradoxal. Mas, as águas de março  (lindíssima canção de Tom Jobim e Elis Regina), que destroem as cidades todo ano, não são  as águas sobre as quais estão nesta semana em Brasília discutindo os líderes mundiais. Por sinal, enquanto não veio nenhum dignitário para o Fórum Econômico Mundial para a América Latina em São Paulo, na semana passada, há muitos deles no Fórum Mundial da Água em Brasília. Paradoxal.

A importância da água no mundo, onde de fato um dos graves problemas é a sua falta, (a linda Cidade do Cabo na África do Sul está nestes meses sofrendo de uma falta de água terrível), não precisa ser muito discutida porque ela existe e é um problema mundial. Provoca guerras, em especial na região do Oriente Médio e África, mas também é problema, entre outros, na Índia e na China.  Quem tem água, tem um elemento fundamental para seu desenvolvimento agrícola e melhoria das condições de saúde. No Brasil, que se ilude que com a extensa região amazônica e com o Rio Amazonas, há água em abundância, mas mais de 100 milhões de pessoas não tem acesso água potável. 

Minas, que já foi chamada a caixa d’água do Brasil, usando água para gerar energia elétrica, tem extensas regiões no Norte do Estado que, como no Nordeste brasileiro, sofrem de falta de água, não só para a agricultura, mas também de água potável. Água para beber. Sem falar de como cuidam das nossas águas as mineradoras, como é o caso da Anglo American agora e da Samarco no passado recente. Nos dois casos, a irresponsabilidade empresarial se sobrepõe ao interesse geral. 
O Governo Federal tem vários organismos que cuidam desse problema e no Brasil temos até  a ANA- Agencia Nacional da Água, que regulamenta o uso de água para fins industriais e agrícolas. E nas bacias hidrográficas há comitês gestores, que funcionam como funcionam as coisas na sua maioria no Brasil: uns melhor, mas na maioria pior.

Em Minas houve ainda a tentativa de fazer no Triângulo, no Governo Aécio Neves, um centro mundial de água, que foi um dos maiores escândalos vistos nas alterosas. Seus autores foram presos e centenas de milhões gastos em prédios e equipamentos hoje estão abandonados. O problema de abastecimento de água potável continua, é da responsabilidade dos municípios, entre os quais vários possuem eficientes entidades autônomas para resolver o problema. E a maioria cedeu o direito à concessão à estatal COPASA. A água, cujo fornecimento tem alto custo operacional, virou um negócio onde multinacionais atuam sem pudor.

Entre tantas prioridades, temos que enfrentar também essa, porque ela significa saúde, melhoria de qualidade de vida, e melhor alimentação. A crise hídrica de quatro anos atrás em São Paulo já está esquecida, e, nos programas dos governos, fala-se mais em privatizar o abastecimento de água do que em solucionar o problema. Quem tem água , tem qualidade de vida, e quem não tem, não tem vida. Simples assim.

Sunday, 4 March 2018

DA GUERRA DO AÇO À GUERRA MUNDIAL


DA GUERRA DO AÇO À GUERRA MUNDIAL

O ano novo chinês pode ser do cão (lealdade e amizade), mas a semana do cão de fato foi do Presidente Trump. As investigações sobre a influência russa nas eleições americanas prosseguem, o Presidente da China conseguiu mudar a legislação mediante a qual se torna praticamente presidente eterno, o genro dele que atua na Casa Branca como assessor foi rebaixado ao ponto de não poder mais participar das reuniões que envolvem segurança nacional, e a Diretora de Comunicações da Casa Branca,  Hicks, a “filha adotiva” de Trump, pediu demissão. E Putin, à véspera de ser eleito pela quarta vez, desafiou o mundo com armas novas, sofisticadas e mortais.

E nesta semana do cão, para dizer assim, Trump não seria Trump, se não saísse ao ataque e virasse o jogo: tudo isso não importa, o que importa é que  eu mando aqui e ali. E atacou com uma atitude tola, segundo a imprensa norte-americana, estabelecendo sobretaxa para a importação de aço  (25%) e alumínio (10 %). Protegeu a pouco competitiva indústria americana de aço, fez felizes os sindicatos do trabalhadores que eram tradicionalmente a favor dos democratas, enriqueceu meia dúzia de seus amigos do setor e desarranjou o mundo. Por que? Com a diferença de outras medidas 
antidumping, (contra a importação de produtos a preços baixos) ele atingiu o  mundo inteiro, aumentou os preços internos com imprevisível efeito na cadeia produtiva norte-americana, que usa aço e alumínio (construção civil, aviação , indústria automobilística, linha branca etc.). e desencadeou uma onda de protecionismo impar, inclusive de países amigos e aliados históricos como o Canada e a Coréia do Sul.

Em resumo, se Trump precisasse estar liderando caos mundial, parece que conseguiu. A raiz do problema, que é o excesso de produção de aço no mundo,  devido à produção chinesa (que por outro lado consome nossos minérios), não vai ser resolvido por essa medida. As reclamações na Organização Mundial de Comércio também vão ficar sem efeito porque os Estados Unidos estão pouco ligando para a OMC. E o Brasil, segundo maior exportador de aço para os Estados Unidos, este sim vai ficar afetado. E muito. Porque de um lado se fecha nosso maior mercado, por outro lado continuamos com o nosso mercado aberto à importação de aços, no ano passado correspondente a uma Usiminas, aberto. 

O que pode ser feito após a casa cair? Chorar na porta do governo dos Estados Unidos, cujo Secretário de Estado, na visita à América Latina, nem pelo espaço aéreo brasileiro passou, e perder tempo. Temos que achar produtos que os Estados Unidos, ainda maior  importador do mundo, importem e nos fazem competitivos em vista das novas medidas. Ou seja, produtos que incluem aço e alumínio, como de automóveis até carrinhos de supermercado ou talheres. Ou peças fundidas.

Em segundo ponto, temos que fazer a  nossa indústria de aço competitiva. A fragilidade das nossas siderúrgicas, endividas, brigando entre si, com pouca cooperação entre elas, só vai aumentar. Com  importação desenfreada, e agora sobrando produto no mundo, o mercado brasileiro será invadido por produtos que estão sobrando no mercado norte-americano.

Os norte-americanos só entendem uma língua, e esse governo ainda mais: do comercio e negócios. Então, como vender a Embraer à Boeing neste momento de guerra comercial? Como comprar etanol e trigo deles, se eles não compram nossos produtos? Materiais bélicos? Temos que rever toda a nossa relação, sem bravatas, sem ameaças, mas com firmeza. Não compra meu, não compro seu. Mas o governo vai fazer isso? Mas isso resolve? Só podemos esperar o impossível:que isso não desarranje o sistema econômico mundial e crie nova recessão. 

Sunday, 25 February 2018

Do saco de gatos ou sistema tributário


Do saco de gatos ou sistema tributário



Por mais que se discuta a criminalidade em seus vários aspectos, seja de crimes do colarinho  branco, narcotráfico, roubos e violência e mais e mais, há uma outra verdade criminal em curso no país: todos os cidadãos brasileiros somos passiveis de punição  legal, segundo as legislações tributária municipais, estaduais e federais. A quantidade de leis, regulamentos e suas interpretações existentes no   Brasil levaram até os mais cuidadosos a uma inadimplência legal. MATEMATICAMENTE,  NÃO HÁ NENHUMA POSSIBILIDADE  DE UM CIDADÃO OU UMA EMPRESA CUMPRIREM TODAS AS LEIS E REGULAMENTOS. Sempre se acha alguma coisa que você não consegue cumprir. E à área tributária somam-se também as leis ambientais, trabalhistas, a fiscalização federal das profissões, as leis na área da saúde e sanitárias e mais e mais.

Uma loucura. E o custo disso tudo? Ninguém sabe exatamente nem quantas leis temos, e nem quanto custa isso ao cidadão e ao consumidor. As empresas gastam (porque isso é despesa pura e não investimento) mais com administração   legal e  tributária dos seus negócios, do que com investimentos  na área de recursos humanos ou pesquisa e inovação. O país criou um sistema tão complexo, perverso e prejudicial a qualquer possibilidade de crescer de forma sustentável que ninguém tem coragem de tocar nele. Hoje há também milhões de pessoas vivendo desse sistema, sejam os seus executores, como fiscais, sejam os defensores, advogados, etc. E como vivem bem!

Mas, há uma ilusão de que a situação não pode mudar, mesmo sem grandes reformas. No nível dos municípios, que aumentam  IPTU sem dó todo ano, não temos visto nenhum deles ter feito alguma ação para reduzir sequer a burocracia, quiçá os impostos. No nível estadual, idem. Os regulamentos dos impostos estaduais são verdadeiras peças de horror tributário, complexas, com o objetivo de impedir a fraude e fazer o contribuinte errar para ser multado. E no nível federal, começamos pelo IR da pessoa física, não ajustado há dezenas de anos, prejuízo ao contribuinte, para que o governo arrecade mais. E são milhares de ações,  somando bilhões, sendo julgadas pelos tribunais especiais tributários,  alegando que governo tem direito de receber, e as empresas alegando que não tem . Sem falar das dezenas de Refis, que não conseguem resolver o problema de arrecadação, nem do pagamento dos impostos, porque simplesmente as empresas não conseguem pagar.

Em resumo, na véspera das eleições, as entidades empresariais deveriam preparar um proposta de reforma tributária tanto no nível federal como estadual. Existe a  proposta de imposto único do prof. Marcos Cintra já na mesa e estudada. O empresariado deveria se unir e só votar nos candidatos e promover os candidatos que tenham compromisso com a reforma tributária. 

Essa reforma é a mãe de todas as demais, porque ela é que vai resolver o  problema do aumento de arrecadação, competitividade das empresas e crescimento do pais.

Simples então: ter um projeto de reforma tributária, e quem for contra não se elege. Claro que o projeto depois deve ser consensual. Não dá mais para passarmos quatro anos emendando a situação. Está todo mundo quebrado do ponto de vista tributário. Vamos aproveitar a oportunidade para a mudança.


Monday, 19 February 2018

DO RIO DE JANEIRO DOS MINEIROS




Mesmo que muitos mineiros passem férias nas praias do Espirito Santo, é o Estado do Rio e a cidade do Rio de Janeiro que são a extensão de Minas Gerais. Diz a brincadeira que a famosa Avenida Brasil da Cidade Maravilhosa vai até a esquina com a Rua Halfeld, em Juiz de Fora, onde moram os cariocas do brejo. Muitos mineiros famosos, entre eles até o ex-governador do Estado e atual Senador Aécio Neves, têm residência no Rio. E a companhia de eletricidade ainda chamada Light pertence a ninguém menos do que à CEMIG. E o embarcadouro de Angra dos Reis tem uma flotilha de iates pertencentes a mineiros de fazer inveja a qualquer paulista. A Estrada Real, hoje mais um projeto esquecido, começa em Diamantina e termina em Paraty. A Vale tem sede no Rio e minério em Minas. O mesmo acontece com a  CSN. O Rio e Minas estão indissoluvelmente ligados, inclusive por estrada rápida, antigamente até pelo trem chamado Vera Cruz. As duas economias se complementam e os dois estados convivem juntos.

Portanto, o que acontece no Estado do Rio afeta a economia de Minas mais do que imaginamos. O estado,  dominado por criminosos, sejam de colarinho branco, sejam bandidos comuns, por encontra-se em segundo lugar entre os  mais poderosos economicamente, falido e em recuperação, deve ser também preocupação dos mineiros. A atual intervenção na área de segurança, que o governo federal está fazendo no estado vizinho, não afeta Minas só porque tem um conterrâneo nosso como interventor. A ordem a ser estabelecida significa que o Rio, para começar, estará seguro para mandarmos mercadorias (o roubo de carga é um dos maiores problemas que temos lá), como também que poderá voltar a crescer de forma sólida e representar um mercado importante para as empresas mineiras. O Rio falido, inseguro, dominado pela bandidagem, só pode ser ruim para o Brasil e muito ruim para Minas Gerais.

Quanto de sucesso pode ter a intervenção do governo federal na área de segurança do estado do  Rio, só o tempo vai dizer. Quais consequências políticas essa ação terá, ainda não sabemos. E nisso se inclui a influência sobre todo o processo político eleitoral. Nem sabemos quanto vai custar essa guerra. Não se ganha uma guerra sem planejamento, sem estratégia e sem saber como sair vitorioso dela. E o que está acontecendo no Rio é uma guerra para a qual também também serão necessários recursos financeiros. As guerras custam muito dinheiro. 
O inimigo, o crime, está bem equipado, bem organizado e, por incrível que pareça, pode ter mais apoio da população do que estamos percebendo. E não está isolado no Estado do Rio. Está no Brasil inteiro. Então, não é só a fuga dos criminosos para Minas ou outros estados que deve preocupar, mas também as ações que vão se seguir, em função do conflito do Rio, em todo país.

Às vezes,  a entrada num conflito armado é cheia de esperança, ao som dos tambores e marchas militares, mas é a paz, onde sempre há vencedores e vencidos, o término do conflito, que traz a verdadeira alegria. E essa guerra está só começando. E na guerra corre sangue. Mas, na situação atual, há outra solução?

Sunday, 4 February 2018

DA JUSTIÇA E DA INJUSTIÇA E O CASO LULA



Em um  determinado momento da história brasileira, dizia-se que, segundo a crença popular, não é recomendável brigar com quem usa saia: padre, mulher e juiz que usa toga. E tinha outra frase: sentença de juiz não se discute, se cumpre.

Com a celeuma do cumprimento da sentença que recai sobre o  ex-presidente da República Lula e que, claro, ainda não é definitiva, em vista dos recursos que permite a lei, a pergunta é simples: a lei, quando aplicada a um político, seja de que matiz for, tem interpretação diferente da lei aplicada a um cidadão comum, sem matiz político e sem recursos financeiros?  Sem exceção, a resposta seria uma só : a interpretação das leis e sua aplicação para políticos na justiça brasileira é na sua maioria diferente. Há sim políticos presos, há condenados que não foram presos, e há políticos ainda sob processo.

A questão que se coloca não é que se condene um politico de esquerda, fazendo-se justiça e aí se condena um de direita. O debate que se coloca é se temos um sistema judiciário que, mesmo com erros e acertos, merece a confiança do cidadão. Ou melhor, se temos um sistema judiciário que é um pilar firme e fundamental para o funcionamento da nossa democracia.

O processo de mensalão e agora o da de Lava Jato, expuseram  mais do que nunca na história do Brasil (não nos esqueçamos dos tempos dos portugueses que esquartejaram Tiradentes e nem do regime militar que criou suas próprias leis e sua própria justiça) de que maneira um sistema funciona e quanto ele atende o cidadão. E aí, ao lado de uma onda de novos servidores de justiça, sejam eles procuradores, juízes ou policiais federais, está um sistema que debate, como no caso de Lula, se condenado deve ou não cumprir a pena. E por outro lado ninguém debate que 40 % dos presos estão  presos sem sentença, sem processo concluído. E que nossos presídios, onde temos quase um milhão de pessoas presas, estão dominados pelas facções criminosas, verdadeiras escolas de crimes e de um nível de sobrevivência sub humana.

Em resumo, cidadão comum pode confiar na justiça? A Justiça de trabalho merece respeito? Milhões de processos, legislação confusa e complexa e ainda incipiente sistema de conciliação na área de trabalho e direito corporativo, tem criado custos para a vida das pessoas e também para empresas que ainda não for calculado.

Tem mais: tem procura de justiça fora da lei e que os agentes de lei ignoram porque convém a todos. Esta justiça, as vezes exercida pelas próprias policias ou as vezes pelas gangues esta totalmente fora de alcance da lei e de uma dimensão que supera o próprio sistema legal da justiça.

A perspectiva de criar um sistema de justiça que possa servir aos cidadão, criar a confiança e reduzir a aplicação da lei discriminatória entre poderosos e pobres, é hoje em dia pouca. As andorinhas que aparecem não são suficientes para criar a mudança necessária. E se políticos acham que a lei não deve  ser cumprida, porque vão fazer as leis para serem cumpridas? E não ha nenhum futuro de democracia brasileira se não houver leis e seu cumprimento. Seja no cumprimento de leis de transito ou das determinações das cortes supremas. E igual para todos.

Sunday, 28 January 2018

DO HOLOCAUSTO, SHOA, NUNCA MAIS



As Nações Unidas declararam 27 de janeiro o dia da Memória das vítimas do holocausto. A data escolhida se refere à libertação pelos soviéticos do campo de concentração de Auschwitz, na Polônia. Aliás, um dos 40 mil campos de concentração e de trabalhos forçados, campos da morte, que os nazistas alemães mantinham com câmaras de gás e outros métodos para assassinar mais de 6 milhões de judeus  e mais cerca de 13 milhões de outros seres humanos, tais como como padres católicos, ciganos, comunistas, eslavos, homossexuais e pessoas com deficiências físicas ou mentais. Todos os  que o regime nazista liderado por Hitler, pelo fascista Mussolini e, com o apoio de simpatizantes nazistas nos países ocupados, consideravam inimigos de estado.

A perseguição aos judeus não foi novidade na Europa. Na história mais recente, no século 15, os espanhóis e portugueses promoveram durante a Inquisição a matança e expulsão dos judeus da península ibérica. E precisaram de 500 anos para reconhecerem isso, devolvendo agora a cidadania portuguesa ou espanhola aos descendentes dos judeus perseguidos. Os reinos austríacos, em várias ocasiões da história, proibiram os judeus de habitarem suas terras ou exercerem suas profissões. Na Rússia e Polônia, assim como na Romênia, existiam Pogroms que consistiam em agressões físicas e queima de aldeias onde moravam os judeus, e sua expulsão. Ou seja, a  perseguição existia desde os tempos dos gregos, romanos, assírios, mas na história moderna foi a Shoa, palavra em hebraico que significa catástrofe, que provocou mortes de forma sistêmica e a mais cruel vista na história da humanidade.

Após 72 anos do término da Segunda Guerra Mundial, a pergunta que fica é se a humanidade, tão evoluída do ponto de vista tecnológico, pode repetir esses acontecimentos e se de fato o antissemitismo, o ódio racial, foram enterrados com os mortos do holocausto ou não.

A resposta clara e em voz alta é: sim.  Sim, o antissemitismo não está enterrado, está vivo e está se tornando, como o racismo e discriminação racial até política de estado. De novo. Os nazistas que depois da guerra fugiram, inclusive para a Argentina, Chile, Paraguai e Brasil (onde se esconderam nas empresas alemães como a VW e Mannesmann, entre outras) ressurgiram com nova roupagem na Europa. Na Áustria, ganharam as eleições, na Alemanha entraram no parlamento, na França o Front Nacional nega o holocausto, na Polônia, na semana passada, aprovaram leis que negam a participação polonesa no holocausto, na Croácia multidões saúdam nos estádios de futebol com bandeiras de ustashas colaboradores dos nazistas, na Ucrânia as leis proíbem críticas ao regime nazista. E mais, na Hungria no dia da Memória das vitimas do Holocausto, os neonazistas fazem festa em homenagem ao seu líder durante a guerra, que mandou mais de 400 mil judeus para morte.

Nunca mais não quer dizer medo de que voltemos aos tempos do nazismo. Mas diz com clareza que os valores da civilização em que vivemos e que são tão bem representados pelos valores judaicos, entre outros, devem ser  preservados. Lutar pela justiça social, lutar pela igualdade racial e pelo respeito religioso, e lutar contra todas as formas de antissemitismo renascido, é preservar a democracia e respeitar os mortos no shoa.

Nunca mais não são palavras ocas, lembradas uma vez por ano, são um compromisso de todo dia,  para que o mundo seja mais igual, melhor para todos.


Monday, 22 January 2018

DA NOSSA INDUSTRIA



Nesta semana, a Câmara de Comércio Exterior, subordinada ao Ministério de Desenvolvimento, Indústria, Comércio, etc., deve decidir sobre a sobretaxa à importação de aço da Rússia e da China. As importações desses dois países têm prejudicado sobremaneira a indústria brasileira, principalmente a CSN e a Açominas, além da Usiminas. Os produtos daqueles dois países estão entrando no mercado brasileiro com preços aviltados, resultado de seus subsídios e jogos cambiais. Existe uma super produção de aço no mundo e o caminho é a exportação,  inclusive para o Brasil, onde após vários anos de queda do consumo e preço, no ano passado a indústria automobilística cresceu e o consumo melhorou.

Existem todas as razões e lógicas para o Brasil, um país produtor de jabuticabas nas políticas e regulamentos de comércio exterior e similares, proteger sua indústria. Assim fazem todos os países do mundo. Inclusive  a China, Rússia e Estados Unidos, especificamente no caso do aço. Mas, por outro lado, poderosos lobbies da indústria automotiva e de eletrodomésticos se reuniram para pressionar governo para que ajude a quebrar a indústria de aço no país e, em especial, em Minas. Esse segmento industrial  não tem compromisso a longo prazo e não consegue um diálogo na linha da corrente de suprimentos, supply chain, com os produtores de aço. E aí entra um pequeno detalhe esquecido na história: enquanto a cadeia produtiva de automóveis e linha branca é totalmente de capital estrangeiro, a indústria siderúrgica ainda pertence ao capital brasileiro. Ou seja, de um lado um que precisa mostrar  lucros rápidos, e outro que fica no país em um investimento de longo prazo. E, no meio, há falta de diálogo para construir um modelo de negócios que atenda aos dois.

Para aumentar a complexidade, temos que adicionar o setor de minério, que alimenta pelo menos a indústria siderúrgica chinesa, porque os russos têm uma cadeia siderúrgica parecida com a nossa, ou seja, do minério ao produto final.

Mas, ainda há exportadores de frango para China e de carne bovina para Rússia que estão dizendo que, se sobretaxar o aço deles, eles vão deixar de comprar nossos produtos. E  para a confusão ser total, a China quer ser economia de mercado na OMC e o Brasil não apoia.
Em resumo, por falta de uma diretriz sobre a indústria que queremos, tem gente que está dizendo que a época da indústria acabou, que esse tipo de situações só vai aumentar. Não há nenhuma possibilidade de o Brasil ser um país desenvolvido sem sua indústria ser mundialmente competitiva. E isso inclui os custos tributários, que oneram nossa a nossa escala de produção, e provocam essas situações inusitadas. O produto importado entra no Brasil porque é desonerado e, como no caso dos dois países mencionados, o câmbio faz parte das suas estratégias comerciais. E, no nosso caso, juros, custos tributários com sua complexidade, e um câmbio que privilegia a importação e castiga a exportação, fazem nosso produto ser mais caro. E aí, se não houver mudanças, tem sim que haver proteção temporária, para que a indústria possa sobreviver  e voltar investir. E o papel de mediador nesse caso é do governo, o mesmo que não faz reforma tributária. 

Lamentavelmente, nessas situações quem ganha é quem tem lobby mais forte e não quem mais está precisando de ter condições para se desenvolver.


DE DAVOS 2018



Mesmo com um inverno rigoroso este ano, repleto de enchentes, avalanches de neve que deixaram 13 mil pessoas praticamente no gelo na cidade suíça de Zermat, os aeroportos de Frankfurt e Amsterdam parados e mais e mais desastres abaixo de zero graus, nada assusta a elite politica e  econômica para que não se reúna na cidadezinha suíça de Davos. Até o Presidente Temer vai, levando alguns ministros. Por cinco minutos de gloria, que serão ampliados para algumas horas pela imprensa brasileira, só para dizer que valeu a pena vir.

A estrela deste ano será o Presidente Trump dos Estados Unidos. Com um ano de governo nas costas, bem descrito no livro Fogo e Fúria, e com a firme convicção de  que seu slogan da campanha, America First (Estados Unidos no primeiro lugar e dane-se o resto), Donald Trump, mesmo multibilionário, nunca frequentou as reuniões de Davos, símbolo do multilateralismo e da  cooperação mundial. No fundo, estar presente ou não, ao lado de uns 3000 participantes, não é tão importante como saber ler o que se diz e como interpretar o que dizem. Por isso, a presença de Trump é importante, porque teoricamente ele terá a oportunidade de expor seus pontos de vista, e quiçá de ouvir os pontos de vista de outros. Estarão lá todos os dirigentes europeus, além de muitos representantes de países da África e da Ásia, entre eles o primeiro ministro da Índia.

A pergunta que colocam em Davos numa era de crescimento da economia mundial, sendo o Brasil a exceção que confirma a regra, é quanto tempo vai durar a  paz econômica e o que puxa esse motor. O consumo dos ricos está aumentando, o número de ricos está aumentando, o fosso entre ricos e pobres em todos os sentidos está aumentando, a China está só crescendo e a  África,  cheia de oportunidades, está estagnando. Por isso, os discursos de  Trump e dos líderes europeus contam muito para nos dar alguma luz sobre se devemos esperar um ano de paz econômica ou não.

Por outro lado, não é só economia e política que vão dominar as discussões. Os debates sobre inteligência artificial, novos patamares tecnológicos e seus efeitos na humanidade, serão, junto com os temas sobre meio ambiente e igualdade de gênero, sem dúvida, dos mais interessantes.

Em resumo, se as discussões de Davos, que tinham até recentemente como contraposição o Fórum Social de Porto Alegre, mesmo se não revolucionam mundo, não há duvida de que são um indicador importante do que os “donos” do mundo, expostos em debate, pensam.

O Brasil não é hoje um problema mundial. Paga as dívidas em dia, permite muita especulação financeira, e organiza, com a Lava Jato e outros processos, a corrupção transparente  com igualdade de oportunidades. E além do mais, todos esperam as eleições e, mais do que os desdobramentos das reuniões de Davos, o que vai acontecer com Lula em Porto Alegre.

Por outro lado haverá, no início de março, um mini Davos regional, latino-americano, em São Paulo, do qual o show será no Brasil. E os temas serão, além de economia e política, também tecnologia.


Monday, 8 January 2018

DA VENDA DA EMBRAER E DA PERDA DA SOBERANIA TECNOLÓGICA



Se pioramos na última Copa do Mundo de futebol tão drasticamente que o sentimento nacional de incapacidade nos atingiu de forma quase insuperável (poxa, até no futebol este país esta mal), isso não aconteceu com o nosso campeão tecnológico fundado nos idos dos anos 70 pelos militares da aeronáutica, a EMBRAER. Originária de uma das melhores escolas de engenharia do país,  o ITA-Instituto Tecnológico da Aeronáutica, a empresa, cujo pai oficial é o Coronel Ozires Silva, grande amigo da nossa Fundação Dom Cabral, foi eficaz durante o período em que estava sob comando estatal e se tornou um campeão mundial após a privatização.

Viajar nos seus aviões pelas maiores empresas  aéreas do mundo enche o peito de orgulho. Este avião é brasileiro. Feito no Brasil, ou Portugal ou Estados Unidos. Ele é o resultado de um conjunto de tecnologias desenvolvidas no Brasil e com os componentes como motores  do mundo inteiro. E é claro, a parte eletrônica. Ou seja, uma perfeita integração à escala mundial de produção.

Nas exportações brasileiras, que são dominadas pelas commodities, a EMBRAER é o nosso exportador número um na lista dos manufaturados. Em um  mercado internacional quase que oligopolizado pelas grandes empresas, a europeia Airbus e a americana Boeing, a EMBRAER não só enfrentou bem a concorrência da Bombardier canadense, com apoio escancarado do seu governo, mas também a de outros concorrentes. Venceu com competência.

Agora,  a empresa precisa olhar para a frente e ver o que fazer. Nosso país, por si só,  não oferece muitas oportunidades de desenvolvimento  de empresas com alta tecnologia. Nossa indústria hoje, com raras exceções, como a WEG na área elétrica, Maxion nos transportes, Suzano e Fibria na celulose e papel, e mais algumas, é dominada pelo capital estrangeiro que não desenvolve tecnologia de ponta no país.

Portanto, encontrar alianças para  desenvolver tecnologias e mercados é um caminho lógico para qualquer empresa. A oferta da Boeing para comprar a EMBRAER é  totalmente lógica para a empresa americana. Mas será que ela tem  razão de ser  para a empresa brasileira, na qual o governo mantem poder de veto, Golden share,  no caso da venda?

Recentemente, três países europeus, Reino Unido, Alemanha e França, e o mesmo vale para os Estados Unidos, restringiram a venda de empresas  consideradas  tecnológicas e estratégicas. Assim, se a EMBRAER quiser comprar, como  os cervejeiros brasileiros fizeram com empresas  de cerveja no mundo inteiro, a Boeing ou a Airbus, não pode.

Vender a EMBRAER , que é uma empresa privada, para a Boeing, não é vender uma empresa a mais para estrangeiros, é dar uma mensagem clara para quem desenvolver empresa no Brasil. A de que o negócio é vender a empresa e não insistir em enfrentar os desafios de tecnologia do mercado internacional. 

Encontrar alianças  é fundamental e provavelmente esse é o caminho da EMBRAER. Mas vender o controle da empresa, é vender a alma  da esperança de que no Brasil somos capazes de fazer uma empresa global. Algo que ninguém em sã consciência faria, inclusive porque a EMBRAER  é uma empresa sólida do ponto de vista  financeiro. E não há duvida alguma de que a curto prazo haverá muita gente embolsando muito dinheiro na transação, e que a médio prazo, mesmo com todas as promessas e dizendo que a Boeing já tem centro de pesquisa no Brasil, a EMBRAER vai virar mera filial, executando ordens. Yes, sir, yes.