Sunday, 29 October 2017

DA CATALUNHA E DO BRASIL



Até há alguns meses, apenas através do futebol a Catalunha existia para a maioria dos brasileiros: Neymar jogava no Barcelona, Barça, time com o mesmo nome da capital da região mais rica da Espanha. Neymar foi para Paris, mas a Catalunha continua e cada vez mais presente no noticiário internacional. A região, de 32 mil km2 (tamanho de Sergipe), onde 95 % dos 7.5 milhões de habitantes falam catalão, língua muito diferente do espanhol, com renda per capita de 35 mil dólares (a do Brasil não passa de 10 mil), maior do que o da Itália, Coréia do Sul e Israel, com exportações de 65 bilhões de dólares (só manufaturados) e responsável por 20 % da riqueza da Espanha, quer se separar. E assim se tornaria o 34° país mais rico do mundo, e um dos mais competitivos. 

O processo de declaração da independência está em curso e é claro que o governo central espanhol está lutando com todas as armas legais, inclusive a policia, para impedi-lo. Quem gostaria de ficar na história como responsável pelo esfacelamento do país? Nem o Rei Felipe e nem o Primeiro-Ministro Rajoy. Mas, o processo está em curso, e cada vez mais complicado. Os catalães não têm como voltar atrás e perder esta oportunidade histórica de sair da Espanha. E os espanhóis, que mantem até hoje colônias no Saara e perderam seu esplendor colonial (mas não a pose), também não sabem resolver a não ser no tapetão. Com experiência de lutar contra o separatismo basco, impregnado com atos terroristas do grupo ETA, estão confundindo o que está acontecendo hoje na Catalunha.

A Europa não quer, no meio das discussões sobre a saída da Grã Bretanha da União Europeia, mais uma confusão como a separação, hoje da Catalunha da Espanha, mas que amanhã pode ser do País Basco, também da Espanha, da Escócia do Reino Unido, do esfacelamento da Bélgica e das autonomias das regiões italianas. Mas, cada um desses processos é diferente, já que a Europa não é um continente unido pelos países mas um conglomerado de nações, com sua história e cultura. A consolidação europeia como união das nações –estados (a Baviera se diz Estado livre na Alemanha) está longe de terminar, se é que algum dia termina.

Na Catalunha, que tem um projeto de independência, tudo pode acontecer. O que não vai acontecer é que nada vai acontecer. A racionalidade do nacionalismo é totalmente irracional. E a Europa já viu esse processo dezenas de vezes, e nunca terminou sem derramamento de sangue.

E o Brasil como fica nessa situação? No caso da reorganização política da antiga União Soviética (neste ano comemorando 100 anos de revolução bolchevique) e da Iugoslávia, o Brasil agiu rápido e reconheceu os novos países. Só até hoje não reconhece o Kosovo, que se separou da Sérvia. E o governo disse que não vai reconhecer a independência da Catalunha. Isso tem lógica porque dizer hoje que vai reconhecer é comprar briga com a  Espanha, o que não convém.


Mas a lição mais importante que fica é olhar nesse mapa do mundo do desejo de cada um ficar sozinho, para o mapa do Brasil, um dos poucos países tão unido, uniforme geograficamente e linguisticamente, culturalmente e politicamente. Será que em contraponto a essas dificuldades de se manterem unidos e  coesos, o Brasil ganha mais forca e projeção? Se for aliado a um projeto nacional de competitividade e justiça social, sim. Mas só pelo tamanho e falarmos uma língua só, não será suficiente.

Sunday, 22 October 2017

DO LEITE E DA ESCRAVATURA



O setor agrícola brasileiro, junto com a mineração, foi internacionalizado desde a descoberta do Brasil. Não demorou muito para que, além de diamantes, ouro e outros metais e pedras preciosas, o Brasil, único país do mundo que tem seu nome oriundo de uma madeira, passasse a exportar madeira, açúcar, cacau. E depois vieram, já no século 19, café, borracha e, com novas conquistas, soja, milho, suco de laranja, etanol, cafés especiais, e mais e mais produtos da terra. O agronegócio foi, assim, sempre internacionalizado e muito antes da indústria. Hoje você encontra produtos bem mais sofisticados, como cachaça, no mundo inteiro. E não há ninguém que não reconheça que, se não fosse o agronegócio, o Brasil teria falido e quebrado ainda mais do que já está.

E como mesmo com toda a tecnologia que foi desenvolvida na área agrícola e pecuária (veja o exemplo do centro de genética de Uberaba) ainda depende muito de São Pedro (e haja mudança climática para ele administrar), nós também importamos produtos agrícolas. Vinhos do Chile, Argentina, França e Espanha, trigo da Argentina, Estados Unidos, etanol dos Estados Unidos, leite do Uruguai, e mais e mais outros produtos de inúmeros países. Com significativa exportação de nossos produtos agrícolas e carnes, criamos um superávit comercial que desequilibra nossas relações comerciais com o mundo.  Ou seja, se queremos exportar mais, vamos ter que importar. E importar de quem importa mais, não menos .

A nossas exportações agrícolas dependem também muito do exterior e das empresas multinacionais no Brasil. No mercado interno, as maiores distribuidoras de alimentos, lácteos, os supermercados, são estrangeiros. Os maiores exportadores de nossas commodities são  estrangeiros. Sementes, fertilizantes, transportes, máquinas e tudo o mais, tem estrangeiro dominando. Então, não dá para ignorar.

E aí entra esse episódio da importação de leite do Uruguai. Esse vizinho nosso tem pouca coisa para exportar para Brasil, a não ser produtos agrícolas, e importa muito do Brasil. Além do mais, é sócio importante no Mercosul, onde estamos negociando um acordo de comércio com a União Europeia. Se não ligar essas pontas, como aconteceu com a proibição de importação de lácteos uruguaios, temos um problema. É como proibirmos a importação de arroz de lá ou a importação de trigo dos Estados Unidos e termos um superávit comercial enorme com a Argentina, que também exporta trigo para Brasil.

Mas, o maior tiro no pé na área internacional foi a edição do decreto referente à definição de escravatura. Que é preciso ter novas definições de normas de trabalho em toda a sua extensão, não há dúvida alguma. Mas, nitidamente, no século 21, afirmar que é normal  que a legislação brasileira aceite normas consideradas imorais pelo mundo, que compra nossos produtos, é um absurdo inaceitável. Nem no Brasil e nem no mundo, ninguém de boa fé, aceita isso. Não há mais espaço para discussão sobre a escravatura, que já acabou . Agora, entidades empresariais defenderem esse regulamento e dizerem que não afeta nosso comércio internacional, como fez a  CNI, é de uma ignorância e irresponsabilidade que só será corrigida lamentavelmente pelo que nos espera. Para começar, já na negociação com a União Europeia, não há negociador europeu que possa aceitar isso. Nem governos e nem consumidores aceitarão. Portanto, o preço que vamos pagar pela meia dúzia de irresponsáveis que acham que o país inteiro tem que defendê-los, com sua falta de ética e responsabilidade social, será altíssimo. Bem-vindos ao nosso futuro visto pelo retrovisor da história.



Monday, 16 October 2017

DO MERCADO BRASILEIRO



Há alguns anos, em uma palestra na Escola Técnica de Formação Gerencial - ETFG -  do SEBRAE Minas, a uma pergunta sobre quantos alunos estiveram em Miami e quantos no Piauí, ou no Ceará, ou no Tocantins, Miami lamentavelmente ganhou disparado. O fato é que nossa futura elite empresarial, não só no SEBRAE, mas também em outras instituições, dá mais atenção ao chamado mercado global, do que ao mercado local ou mercado regional. Isso não vale só para os estudantes, seja de que área de estudo for, mas também para os empresários já estabelecidos. As entidades empresarias oferecem mais oportunidades para viajar para exterior, em especial participar de feiras, do que promovem mercados regionais e nacional. 

A empresa estrangeira que vem para o Brasil, com exceções nas áreas tipicamente de produtos cujo mercado é exterior, como mineração, vem investir porque este país tem um mercado de 210 milhões de pessoas, que ainda tem um potencial muito grande de desenvolver.  Não  há fronteiras, apesar das enormes dificuldades logísticas, nesse mercado. Uma das razões de o empresário não enxergar esse potencial é o preconceito regional. Os mineiros acham que os paulistas são arrogantes e complicados. Que os nordestinos, bem você sabe os nordestinos são nordestinos. Começando pelos baianos que são baianos. E assim por diante, ficam cheios de opiniões ao invés de estudarem melhor os mercados e se dedicarem a um projeto a longo prazo de conquista.

Aliás, as coisas são mais fáceis se olharmos que um mercado como o de Minas Gerais, é, do ponto de vista mercadológico, um mercado bem interessante. Mas, se olharmos de perto, descobrimos que o empresário de Montes Claros, a não ser que se instalou com polpudos incentivos,  não vende nem em Brasília e muito menos em Juiz de Fora. O mesmo vale para os empresários de todas as regiões mineiras que, fechados nos seus mercados locais, choram as mágoas, mas não se levantam para ir vender no imenso e dinâmico mercado brasileiro. Sem falar em Mercosul, Argentina, Paraguai e Uruguai.

A solução está na mudança de paradigma das entidades empresariais, que devem promover mais mercados regionais e o nacional, mas sem perder de vista o mercado global. Promover a indústria de Minas e seus produtos e serviços no país inteiro deveria ser a resposta à crise. E aí, o uso de modernos instrumentos de analítica e big data devem fazer parte desse esforço.


Com certeza isso pode melhorar em muito o faturamento da indústria mineira.

Tuesday, 10 October 2017

DA PORTA ABERTA EUROPEIA



Na semana passada foi concluída em Brasilia mais uma etapa de negociações entre os representantes da União Europeia, EU, e Mercosul sobre o tratado de comércio entre os dois blocos econômicos. Como toda negociação em curso, as conclusões são parciais mas indicam ao mesmo tempo uma forte tendência de que a conclusão do acordo interessa às duas partes. O acordo comercial entre esses dois blocos econômicos em que residem mais de 650 milhões de pessoas será, uma vez concluído, o maior acordo comercial entre duas regiões. Ao mesmo tempo, será para o Mercosul o fechamento de uma parceria estratégica com seu maior parceiro comercial após a China e seu maior investidor. Além da clássica declaração de que a maior parte da população da  nossa região é de origem europeia e fala línguas, espanhol e português, europeias.

O acordo prevê uma gradual abertura de mercados nos dois sentidos, mas protegendo alguns setores, e sendo menos generosa para alguns produtos agrícolas como o etanol e a carne bovina. Aliás, foi nestes dois itens que a negociação em Brasília empacou. Os europeus estão oferecendo cotas ridículas, a de carne significa que os 4 países de Mercosul poderão exportar anualmente a quantidade correspondente a um bife por habitante europeu e a de etanol não passa de nossa produção de uma semana. O medo dos agricultores europeus fortemente subsidiados, ao contrário da nossa agricultura, é que vamos invadir a Europa com nossos produtos e acabar com eles. Por outro lado se esquecem de que, no caso de França, o comércio de alimentos no Brasil é dominado por empresas francesas. O mesmo acontece com máquinas e automóveis, indústrias dominadas por europeus no Brasil.

As negociações foram acompanhadas por forte contigente empresarial liderado pela chamada Coalizão Empresarial Brasileira, aliada à CNI, que mais reclamava da proteção de setores do que de um aproveitamento das oportunidades que o acordo vai oferecer. As entidades empresariais CNI, CNA, CNC e setoriais, estão na absoluta maioria olhando o futuro pelo retrovisor e sem  nenhum projeto de desenvolvimento do seu setor dentro de uma nova realidade que será trazida pela conclusão do acordo. Está claro que o acordo, que ainda tem chance de ser concluído até o final do ano em suas linhas gerais, traz muitas vantagens para quem está mais bem preparado, como os europeus, mas ele abre inúmeras oportunidades para nossas exportações.Se os franceses vão vender mais queijo para nos, nos podemos vender mais pão de queijo e outros produtos lácteos para a Europa.


Mas, para isso precisa estar se preparando já. Sem choro, preparar para uma nova fase de comércio mais competitivo. Porque se não fizer isso, efetivamente o acordo por si só não vai ajudar, mas atrapalhar. Ou teremos coragem e meios para sermos competitivos, ou aí sim vamos desaparecer. O consumidor brasileiro não quer nem viver no mundo subdesenvolvido, nem ter produto de segunda e nem ser cidadão da segunda classe.

Monday, 2 October 2017

DA CEMIG E ITAJUBÁ



A paulada da retirada das concessões das usinas hidro-elétricas da CEMIG e sua passagem para estatais estrangeiras é mais um golpe, desta vez direto no coração de Minas. Minas se desenvolveu após o governo de JK justamente porque então a Companhia Energética de Minas Gerais permitiu, com fornecimento de energia, inicialmente com a Usina de Três Marias, o desenvolvimento da sua indústria e agricultura e o da sua sociedade como um todo. A empresa pública criou uma cultura de gestão impecável e eficaz, tendo como símbolo, entre outros, o engenheiro Joao Camilo Penna, copiada pelo Brasil inteiro e modelo de desenvolvimento do setor energético brasileiro. Até que em um  determinado momento os políticos tomaram conta dos técnicos, o auge ocorreu com a ilusão da venda de um terço para um sócio depredador estrangeiro, que foi substituído pelo campeão local da Lava Jato. A empresa se tornou presa de interesses escusos, a compra da Light se enquadra nisso, além de investimentos em Monte Belo, expansão desenfreada de negócios (totalizando mais de 100 empresas espalhadas pelo Brasil e um mundo propositadamente de complexo controle financeiro). Distribuição de dividendos sem que os houvesse, empréstimos  para pagar dividendos e satisfazer sócios privados, além de milhares de alianças de negócios que prejudicaram a empresa e  geraram dinheiro para poucos. Só para ilustrar como isso terminou: dois dos ex-presidentes recentes trabalham hoje ou são sócios para um grupo empresarial mineiro com fortes ligações na área de liderança empresarial.

Ou seja, o modelo pelo que se enveredou, a aliança de políticos e empresários para benefícios próprios, levou a nossa CEMIG, apesar de ser cotada na Bolsa de Nova Iorque e ter acionistas em 45 países, a uma fragilidade que produziu, junto com a queda da força política de Minas no cenário nacional, a perda de usinas. Há elementos externos que ajudaram nisso sim, mas há também descaminhos da empresa, levados adiante por vários governos que ajudaram a enfraquecer a empresa com enorme  endividamento, entre outros. 

Então, a hora é de rever o modelo da CEMIG para que volte a ser um eficaz instrumento de desenvolvimento de Minas. Alguns defendem total privatização. Não vão faltar compradores, aliás começando pela famigerada  Light do Rio. Mas, o que aconteceu não foi com um sócio estratégico mineiro? Tem que repensar com calma, porque a solução a ser dada à CEMIG será dada ao próprio desenvolvimento do estado. 

E a CEMIG não é  nosso único problema. Como vai se posicionar a Fiat, antiga líder brasileira em produção de automóveis, com os novos desafios de carros elétricos, concorrência feroz e indústria 4.0? Em Itajubá, terra de engenheiros que construíram a CEMIG, está definhando a indústria eficiente de helicópteros, HELIBRAS, porque o  Ministério da defesa não cumpre contrato. E políticos de Minas não têm nenhuma força para pressionar o Ministério da defesa para que isso não aconteça. A pressão vem da FIESP, porque a entidade mineira de indústria está preocupada em construir na mesma Itajubá um laboratório que tira recursos de educação de mão de obra para satisfazer poucas empresas.

Tempos difíceis, que requerem coragem e conhecimento para resolver os problemas. Que esses episódios nos levem a soluções melhores para um futuro  mais sustentável do ponto de vista social e econômico.