Monday, 27 March 2017

DO PÃO DE QUEIJO FRANCÊS

DO PÃO DE QUEIJO FRANCÊS

Impossível! Pão de queijo é algo tão peculiar, tão mineiro, ligado às montanhas e ao povo mineiro, que francês, que faz maravilhas com pães (que o digam  os padeiros mineiros que foram lá aprender em um programa chamado Companheiros do Dever, organizado pela FIEMG, em cooperação com a Embaixada do Brasil em Paris, nos anos 2000), não deve fazer pão de queijo. Mas, nos supermercados dos franceses, hoje, no Brasil,  como o Pão de Açúcar, você encontra maravilhas das padarias francesas, como croissant, fresquinhas. Vem congeladas de avião e, esquentadas na hora, nada perdem em gosto para as  que são  servidas na França.

Você também tem os queijos mineiros, que francês não faz. Ou os franceses, que mineiro na faz. E vinhos, como o Malbec, o mais famoso vinho argentino, que os franceses já fazem. Malbec francês, tão bom como o argentino e, nas lojas em São Paulo, mais barato. E a cachaça mineira, hoje em media mais cara do que whisky escocês? Nas verdade, a melhoria significativa de qualidade, que abriu os caminhos do mundo, foi feita com os franceses. Mas, a história não acaba aí: daqui a alguns anos, você vai comprar automóvel europeu fabricado na Europa sem  pagar taxa de importação, e portanto terá na mesa e na estrada produtos europeus da melhor qualidade por preços bem menores.

E o verso da medalha também é verdade: os europeus poderão comprar lá nossos produtos sem pagar taxas de importação, que segundo eles oneram os produtos deles nos mercados do Mercosul, Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, em quase 24 bilhões de reais por ano. E tudo isso será possível se for assinado até o final do ano um acordo de livre comércio, cooperação  e político, entre o Mercosul e a União Europeia.

Na semana passada, os negociadores se reuniram e discutiram vários itens do acordo. De fato, nas regras de origem geográfica que protegem nossos produtos, como pão de queijo e cachaça, além dos queijos mineiros, como exemplo, faltam aos nossos negociadores dados, informações e indicação do interesse dos exportadores brasileiros. Na reunião, acompanhada por um grande número de empresários de São Paulo, só tinha de Minas o lendário representante da Magnesita, Engenheiro Renato Tavares, que sempre foi globalizada e sabe o que é  mercado internacional.
O acordo, a ser concluído ate o final do ano, anda bem segundo os negociadores brasileiros. Mas, as empresas e a economia como um todo precisam se preparar para uma nova fase, mais competitiva, com novas oportunidades de mercado, mas também novos desafios. O acordo deve criar mais empregos, melhores empregos, mas tudo será diferente.

E agora temos que ficar bem atentos às negociações e às mudanças que elas vão trazer. Senão, os franceses vão nos mandar queijos, vinhos, máquinas, e pão de queijo. E nós só vamos mandar para Europa o que mesmo?

Sunday, 19 March 2017

DO POBRE, NOBRE, E PODRE


DO POBRE, NOBRE, E PODRE

A frase de Hamlet, na peça teatral do inglês William Shakespeare de mesmo título, “há algo podre no Reino da Dinamarca”, pode ser mais uma vez repetida para os momentos de hoje no Brasil: há algo de podre neste país. O mais recente escândalo da “carne fraca” ou seja carne podre que pobre come, adiciona mais um capítulo à novela de podridão e corrupções que vivemos no país. A cada momento aparece um escândalo, os políticos de todos os partidos ficam mais enlameados, e as condenações  cada vez mais longe. Ninguém sabe onde isso vai parar e quando vai parar. E a razão é simples: a podridão é de tal tamanho que o país precisa de um renascimento, surgir das cinzas como Fênix para recomeçar. É uma transição dolorosa na qual a parte mais triste é que, mesmo com um processo como a Lava Jato, em curso há três anos, parece que ninguém se assusta e que não mudam os hábitos, sejam nas empresas, na administração pública ou entre políticos. Se para um respeitado deputado que vira ministro, um simples superintendente do Ministério da Agricultura no seu estado é chamado de Grande Chefe, então a escala de valores está de cabeça para baixo e quem manda mesmo e vale alguma coisa na hierarquia do poder é o Grande chefe e não o tal do deputado.

A operação da Carne Fraca traz muitas lições. Que há fiscais em todos os níveis honestos, não ha dúvida alguma. E que há desonestos contra os quais os empresários não tem força para lutar ou preferem não lutar, não há duvida também . Não tem um empresário neste país que não foi uma vez na vida, ou  mais, ameaçado por um fiscal de qualquer natureza. E quantos os puseram aos tapas para fora, denunciaram, e quais entidades de classe denunciaram essas situações? E quantos que fizeram isso não foram ameaçados, inclusive com suas famílias, suas vidas e suas empresas destruídas. Em 2010, o então Presidente do Sindicato de indústria de carnes de Minas, Cassio Braga, denunciou essas situações. E o mesmo fez na Câmara de Indústria de Alimentação da FIEMG,  defendeu posições a favor da indústria e contra esses desmandos que agora apareceram. Mas, as entidades empresariais deveriam se posicionar mais firmemente contra esses e outros casos, como o de desastre de Mariana e o escândalo de carne podre em Minas, que está na justiça  de Juiz de Fora há dois anos, sem solução.

A passividade ou acomodação vai nos custar caro. A BRF tem como seu Presidente do Conselho, Abílio Diniz, e seu membro o ex-ministro Luiz Furlan. Nenhum dos dois veio explicar o que aconteceu. Deixam que as pequenas malandragens prevaleçam ao invés de assumirem perante o público e seus consumidores a responsabilidade. Errar  é humano, reconhecer erros e corrigir é a grandeza do homem. Eles a tem? A balela do ministro da agricultura de que ele vai continuar comendo carne brasileira é ridícula, porque o que ele e seus antecessores, entre os quais há mineiros, não fizeram é organizar esse setor e garantir, em primeiro lugar ao próprio brasileiro, e ao mundo, que tudo está em ordem.

Este episódio da Carne Fraca vai custar milhares de empregos, acabou com o mito de que o agronegócio era maravilha, vai afetar todo o setor agrícola e sua posição no mundo. Vai afetar nossas exportações de forma inimaginável. Perdemos a credibilidade, como há quase 90 anos, quando acharam pedras nas sacas de  café que exportávamos. Culpar os que mostraram o cancro pelo que aconteceu, e está acontecendo ainda em muitos setores, é não resolver o problema maior: entre nós ainda os desonestos, com seus métodos de trabalho obscuros, e de conhecimento muitas vezes de todos, prevalecem. E estão acabando, com a passividade e silenciosa conveniência de cada um, mas em especial do próprio empresariado, que aceita esses métodos como facilitadores de negócios, com o país . Há algo de podre além da carne.

Sunday, 12 March 2017

DO FUNDO DE GARANTIA E DA ENERGIA ELÉTRICA

DO FUNDO DE GARANTIA E DA ENERGIA ELÉTRICA

Se você prestar muita, mas muita atenção nas filas de pessoas que estão retirando dinheiro na Caixa Economia Federal das chamadas contas inativas do Fundo de Garantia do Trabalhador  ( FGTS), você não vai encontrar nenhum engravatado e como dizia Lula, de olhos azuis. La estão para receber seus dinheirinhos, esperando horas na fila (que agora já é menor) trabalhadores, humildes, desempregados ou sub-empregados. Brasileiros com pouca chance de progredir na vida, lutando para pagar as contas e lutando ainda para tentar conseguir emprego, quando tem.

Foi dinheiro deles que o estado brasileiro, representado pelos governos e seus ministérios de trabalho e da fazenda, se apropriou, geriu e enriqueceu muita gente, algumas das quais  estão hoje na fila de espera da Lava Jato. Se o governo anterior do PT não olhou e resolveu essa questão, não tem justificativa. Agora, que o governo do partido dos trabalhadores que esteve no poder 17 anos não viu isso, não dá para acreditar. Tiraram dinheiro de forma descarada, vil e imoral do trabalhador mais humilde, mais pobre. E nesta hora a pergunta é , porque ninguém viu isso antes, não protestou. No CODEFAT, o conselho que administra FGTS, tem representantes sindicais. Na Câmara e Senado tem políticos que representam trabalhadores. Nada. Ninguém viu, ninguém sabe.

Então parabéns ao Presidente Temer e seu Ministro da Fazenda, que acharam esse buraco nas contas e resolveram. E quantos outros, como tabela de imposto de renda desatualizada, ainda tem?

Outro exemplo de verdadeira maracutaia foi o resultado de uma ação popular que exigiu a revisão das contas de luz. E ai descobriram que pagamos no ano passado 1.800 milhões de reais a mais na conta de luz porque a ANEEL, a agência responsável pelo controle do setor elétrico, errou e autorizou a cobrança indevida. Agora começa jogo de empurra entre vários órgãos governamentais, desculpas sem sentido e sem nenhuma responsabilidade. O fato é que tantos economistas, engenheiros e não sei mais o que, que atuam na área, não souberam fazer cálculos. Ou fizeram cálculos que enriqueceram as distribuidoras no ano de crise, de falta de emprego e de atividade produtiva.

Por favor, me poupe dizendo que se enganaram. Fizeram de forma consciente, clara, e de má fé beneficiando um grupo de empresas em prejuízo da população. E nenhum deputado ou senador falou nada, os burocratas que estão nos enganando dizendo que não sabiam de nada, continuam onde estão, e nem os procuradores de justiça, tão zelosos, fizeram alguma coisa. Enquanto estamos preocupados, o que está certo, com or desenrolar da Lava Jato, os elefantes estão passando por nós, tirando ainda mais dinheiro.

Os dois casos mostram que estamos longe , mas muito longe de sermos uma sociedade transparente e honesta com seus cidades. Imagina quantos casos como esses ainda estão nas telecomunicações, concessões, outras cobranças de impostos e taxas. É de arrepiar só de pensar nisso!

Thursday, 9 March 2017

DO MUNDO GLOBAL MINEIRO

DO MUNDO GLOBAL MINEIRO

Minas Gerais nasceu globalizada: a invasão portuguesa só sentiu interesse pelas terras brasileiras não pela imensidão do seu território ainda desconhecida, nem pelas belas praias ou dóceis índios, mas quando os bandeirantes chegaram às minas de diamantes e ouro. Na época, e ainda por muitos séculos, eram essas riquezas trazidas pelo que hoje chamamos de Estrada Real (do projeto turístico inicial de cultura e história, transformado em projeto de marketing de ganhos fáceis para organizadores) ao porto de Parati, que sustentavam o governo português e depois, os brasileiros.

Hoje em dia não saem de Minas mais diamantes, mas sai muito ouro, cada vez menos pedras semi-preciosas, mas com minérios como de ferro e nióbio, produtos siderúrgicos e com a ajuda do café em grão, soja, milho, Minas é essencialmente um estado  exportador e formador do maior superávit comercial do país. Com tranquilidade dos números, pode-se dizer que Minas sustenta o superávit da balança comercial brasileira, sendo que além dos produtos primários mencionados ainda há automóveis, auto-peças e alguns outros manufaturados, como têxteis.

Falamos de um estado cuja economia depende, de um lado, da conjuntura mundial para absorver suas matérias  primas  e, de outro lado, de sua capacidade de ser competitiva. O esforço de diversificação da economia mineira tem longa história mas conseguiu resultados pouco significativos. Minas deve adotar os modelos canadense e australiano, que são baseados na competitividade de seus recursos naturais e também na adoção da sustentabilidade como pilar do seu desenvolvimento, e ao mesmo tempo procurar um avanço tecnológico que lhe permita ser competitivo e diversificado. E olha que nem o Canadá, nem os Estados Unidos e nem a Austrália abandonaram o agronegócio como outro sustentáculo de suas economias.

E todo esse processo de globalização coloca a questão de quanto estamos de fato globalizados em Minas. Algumas escolas internacionais, como a excelente Fundação Torino, a Escola Americana, a Aliança Francesa, entre outras, os inúmeros cursos de relações internacionais, alguns consulados, o projeto da Associação Comercial de Minas de internacionalização de BH, não nos fazem globalizados. Muito menos missões empresariais aos exterior, que têm como objetivo agradar  os eleitores sindicalistas e não trazem beneficio algum à economia. Há também o tímido HINDI, que tem poucas benesses para distribuir e o agressivo  CODEMIG, que tem muito dinheiro mas está sem rumo.

Terminando a coluna, após cinco anos, que discorria essencialmente sobre o mundo e a economia mineira, fica a pergunta onde fica e ficará Minas neste mundo novo de indústria 4.0, de conflitos regionais religiosos ou não, de uma sociedade tecnológica, competitiva. Uma sociedade disruptiva em todos os sentidos. Alguém pensa e vai levar o estado e sua população a um novo patamar?

Se os 300 artigos escritos no Hoje em Dia, que abandona essa discussão hoje, fizeram alguns pensarem sobre isso, já valeu meu agradecimento a todos os meus leitores. Minas de futuro em um mundo diferente. E Minas diferente. Melhor para todos.

Sunday, 5 March 2017

O FECHAMENTO DA FNAC

O FECHAMENTO DA FNAC

O fechamento de 12 lojas da consagrada cadeia de eletrônicos e livros francesa FNAC  no Brasil caiu para incautos como um raio durante  as tempestades de verão. E a notícia que se propagou foi que o Brasil não é um país onde uma empresa tão consagrada, com quase 25 bilhões de reais de faturamento no mundo, possa sobreviver. Nas redes sociais e debates nos botequins da elite econômica, a notícia foi mais comentada do que a quebra da Sette Brasil, fabricante de sondas para perfuração de petróleo, que deu um prejuízo trilionário aos cofres já vazios do Estado brasileiro. Ou a da OI, companhia de telecomunicações, cuja quebra  passou de 40 bilhões de reais. Ou a do setor elétrico, cujos números mudam todo dia e também passam de bilhões e bilhões.

Coitado do Brasil e dos brasileiros que não conseguem segurar uma FNAC, desde o ano passado associada a outro gigante de eletrodomésticos e eletrônicos franceses, Darty. A FNAC, fundada em 1954 na França, como uma espécie de cooperativa para vendas aos executivos, tinha um modelo de negócio que atraia o comprador. E ele incluía como a sua base funcionários especializados, bem treinados, que atendiam bem às necessidades, desejos e sonhos dos clientes. Além de seus preços atrativos. Mas o mundo mudou, apareceu a Amazon, o comércio eletrônico, os livros eletrônicos, streaming na música e o cliente também mudou. A FNAC entrou em uma crise que durou anos, nos quais abriu filiais no Brasil, até que depois de uma longa batalha de negócios conseguiu se juntar com a Ricardo Eletro francesa, a  Darty. E agora as duas empresas já deram lucro e avançaram em vendas.

O Brasil ilude muito a empresa estrangeira. Um potencial enorme de mercado, mas concorrência feroz de empresas do mundo inteiro. E os impostos e a legislação trabalhista são complexos e altos. E às vezes os modelos de negócios que dão muito certo em outros países não dão certo aqui. A FNAC mudou e se adaptou na Franca, mas parece que a adaptação no Brasil não seguiu o mesmo ritmo. O mesmo aconteceu com a gigante de energia francesa EDF quando comprou Light no Rio de Janeiro e saiu do mercado. Ou então com a rede de hotéis Accor, que acaba, ao contrário  da FNAC, de anunciar que ampliou suas atividades no Brasil, incorporando mais 28 hotéis à suas rede de mais de 200 hotéis. Também empresa francesa.
Mas, para nossa alegria, continuam no mercado a Leitura, genuinamente mineira, a Cultura, em São Paulo, sempre melhor, a Livraria da Vila, e, apesar do lamentável desaparecimento da Livraria da Vinci no Rio, continua sempre o sucesso de Cia. De letras e outras editoras. Nem tudo acabou com a FNAC.

Friday, 3 March 2017

DO MUNDO E DO BRASIL

DO MUNDO E DO BRASIL

Mesmo que nossos líderes políticos não declarem que não são líderes do mundo, como o Presidente dos Estados Unidos Trump declarou nesta semana, está claro, para quem quer que seja, que não são. Tanto assim que o novo líder dos Estados Unidos já conversou com meio mundo, inclusive com líderes dos países latino-americanos, como o colombiano Santos, recebeu o presidente do Peru na Casa Branca e não conversou por telefone com o Presidente Temer e nem o convidou a visitar Washington. A Comissária  para assuntos externos da União Europeia conversou com o então Chanceler brasileiro José Serra e combinaram uma visita ao  Brasil. Jose Serra volta ao Brasil e pede para sair do cargo. Então, como fica o combinado numa hora em que estamos negociando importante acordo entre a União Europeia e o Mercosul. E sem falarmos da lama da corrupção que  as nossas empresas de engenharia, inclusive de Minas, espalharam pelo mundo afora, como parte da política econômica internacional dos governos anteriores. Verdadeiros ventiladores gigantes de lama, como se diz no popular.

Por outro lado, a influente e respeitada revista francesa Nouvell Observateur publica um interessante gráfico analisando os efeitos da globalização no  mundo. Os grandes vencedores foram a China, Índia, Indonésia, Brasil e México. E comparando Produto interno bruto, levando em conta a paridade do poder de compra, os líderes no ano passado foram China, Estados Unidos, Índia, Japão, Alemanha, Rússia e Brasil.

Já para o ano 2030, daqui a 12 anos, não há mudança nos primeiros quatro lugares, mas a partir daí, a Indonésia substitui a poderosa Alemanha no quanto lugar, a Rússia continua no sexto e  o Brasil passa para o oitavo lugar, logo após a Alemanha.

Mas o mais interessante é como fica 2050.Veja a tabela:
China
Índia
Estados Unidos
Indonésia
BRASIL
Rússia
México
Japão
Alemanha

Bom, então o Brasil será uma potência em 2050 por essas previsões? De país do futuro, passará a ser um país desenvolvido?

Pelo jeito, os economistas que fizeram o estudo (da PwC), com seus cálculos, acreditam nisso. Agora falta cada um de nós acreditar nisso e trabalhar para tanto. Não só no desenvolvimento da democracia e sua consolidação, com valores de transparência e desenvolvimento social, mas na área de desenvolvimento econômico e tecnológico. As mazelas de hoje podem ser parte de uma transição da sociedade brasileira, de mudanças necessárias para avançar, ou podem se transformar em mazelas incuráveis e insolúveis. Depende da nossa  inserção no mundo, que depende da nossa capacidade de transformar transição em desenvolvimento. Para todos.