Monday, 26 December 2016

DE SER EMPRESÁRIO, EMPREENDEDOR, COMERCIANTE, FAZENDEIRO E OUTRAS

DE SER EMPRESÁRIO, EMPREENDEDOR, COMERCIANTE, FAZENDEIRO E OUTRAS

Uma reflexão sobre a missão de exercer uma das funções descritas no título cabe bem no final de um ano, ou de um período inteiro de vários anos, de tumulto, incerteza e volatilidade ímpar na economia e na política do país. Se levarmos em conta não as definições teóricas ou de Wikipédia o que é o exercício de uma dessas funções, mas  o que os nossos contemporâneos, como José da Costa, Nansen Araújo, José de Alencar, Modesto Araújo, Alair Martins, Alexandrino Garcia, Beth Pimenta, Marcos Mares Guia, Ernesto Salvo e tantos outros, nos ensinaram, podemos tirar algumas conclusões que nos ajudem a entender melhor a situação em que vivemos e o modo de ultrapassar as dificuldades.

Creio que a primeira lição é que a função de uma empresa, fazenda, comércio ou prestadora de serviços, é não só produzir lucros, mas servir aos seus clientes. Ou modernamente dizendo, ao mercado. Entendendo bem o cliente, suas necessidades, e adaptando-se às mudanças por que ele está passando (não adianta vender hoje máquina de escrever se as pessoas usam tablet), você tem grande chance de, com dinamismo próprio, adaptar seu modelo de negócios e sobreviver.

Não se pode ignorar o fato de que, se você quiser ganhar dinheiro rápido e fácil, então é melhor escolher outro ramo de atividades, que não é ser empresário. Construir uma empresa, mantê-la no mercado, ou manter uma fazendo viva por muitos anos, não é trabalho de um dia e nem de uma semana. Requer persistência, objetivos claros, controles financeiros rigorosos e muita preocupação. É um trabalho de equipe, inclusive da família, dos sócios, com objetivos a longo prazo.

As mudanças tecnológicas não são novidades. Podem ser mais sentidas hoje, eventualmente são mais rápidas, mas sempre existiram. Então, você tem que ser capaz de liderar essas mudanças no seu negócio. Decidir se você segue os concorrentes ou lidera o mercado. Nem que seja padeiro no bairro, pode ter melhor atendimento, melhor pãozinho, melhor quibe. Nada  de segunda, sempre tudo de primeira.

Volto ao que, aliás,  todos os mencionados foram mestres no assunto, que é o relacionamento com as pessoas. Olhe para o seu negócio no dia em que está fechado e pergunte quanto vale. E quando as pessoas começarem a atuar, a trabalhar,  quanto isso vale. O capital humano e a sua gestão são valores fundamentais na empresa. Quem não sabe administrá-lo pode até ganhar dinheiro, mas a empresa não sobreviverá a longo prazo.

Não se pode ignorar a firmeza no cumprimento dos valores éticos dos empresários bem sucedidos e cujas empresas sobreviveram às tempestades de políticas ou à falta delas no Brasil. Ninguém que colocou a corrupção como base de negócio pode sobreviver a longo prazo. Ganha dinheiro mas não resiste ao tempo.

Empresa, fazenda, indústria, comércio, serviços são mais do que máquinas de ganhar dinheiro, como nos ensinaram muitos dos nossos mestres, entre os quais incluiria, não como empresário mas como homem público, o  engenheiro João Camilo Penna. São entidades que produzem felicidade, oportunidades, riqueza social e econômica. Entendidas assim são bem comum, respeitadas e cuidadas por todos, para crescer e sobreviver aos tempos difíceis.

Sunday, 25 December 2016

DO ANO DE TERROR E ESPERANÇA


DO ANO DE TERROR E ESPERANÇA

Escrever no fim deste ano, e ainda por cima um artigo a ser publicado sobre os eventos do ano que passou, no domingo de Natal, é sem dúvida uma tarefa das mais complexas para o colunista. O ano não foi atípico só no Brasil, onde saiu a Presidenta por impeachment e entrou um vice com chance de sair. A economia que no mundo inteiro se recupera, no Brasil continua com esperança de recuperação, com sorrisos marotos nos prometendo com micro medidas macro resultados. É a política econômica band-aid, de olho nas delações premiadas dos políticos e empresários que pagam qualquer preço para sair do emaranhado de corrupção em que se meteram. E sem falar no Congresso, cujo ex-presidente também está preso, que cada noite nos surpreende com mais atos contra o cidadão e o país do que a favor. Em resumo, um ano que no Brasil nem de longe terminou e que vai se arrastar como a sujeira do Rio Doce, provocada pela queda da barragem da Samarco.

Mas esse retrato desastroso do Brasil, quando colocado no mundo, a não ser no campo do campeonato da corrupção, da limpeza jurídica e da economia, tem uma outra componente diferente, que abre uma janela de tranquilidade. Fizemos os Jogos Olímpicos com tranquilidade e com perfeição. E se olharmos o balanço do mundo, onde só nesta última semana houve um atentado em Berlin, a morte do terrorista que provocou o atentado, na Itália, o assassinato do embaixador da Rússia na Turquia, a reconquista da cidade de Allepo na Síria pelas forcas governamentais, com êxodo de milhares de pessoas, e o sequestro de um avião que acabou na Malta, ainda podemos dizer que por aqui está tranquilo.

Sem mencionar os atentados na Bélgica, Estados Unidos, e Franca, os conflitos na Líbia, Iraque, Afeganistão, Ucrânia e Síria, a queda do avião no Egito e mais e mais, podemos dizer que efetivamente o mundo está sem paz. Dizer que estamos em guerra, talvez seja forte demais, mas que hoje quando se viaja tem que tomar cuidado, não há duvida alguma. O mundo esta conturbado. A segurança interna vai exigir uma nova postura e o caso do ataque em Berlin mostrou claramente isso. As sociedades democráticas terão que se reorganizar para proteger melhor seus cidadãos contra os extremistas e terroristas. Aliás, a Europa sempre teve seus extremistas: vamos lembrar que a Primeira Guerra Mundial começou com o terrorismo nacionalista sérvio.
O novo retrato do horror no Oriente Médio e na Europa não está pronto para ser pintado. Só vai ficar pronto com as eleições na Franca e Alemanha no próximo ano, quando o tema do combate ao terrorismo será um divisor de águas.

E a esperança? Bem, fora dos assaltos, sequestros, Lava Jato, expansão do narcotráfico, pelo menos o Brasil está livre de terrorismo. Mas, está mesmo? Vale a pena acreditar na paz, mas vale a pena ainda mais lutar para que tenhamos uma sociedade em paz.

Friday, 16 December 2016

DO URSO RUSSO NO CIRCO

DO URSO RUSSO NO CIRCO

No passado, não existia um bom circo que não tivesse algo da Rússia: ou eram os artistas (a Rússia possui uma das poucas escolas para artistas circensenses) ou então pelo menos um urso russo. Ele dançava, às vezes se mostrava preguiçoso até ganhar uns doces, mas era enorme e as crianças o adoravam. Não existia bom circo sem algo da Rússia.

Bem, na política internacional também parece que não há um bom circo sem a Rússia.Ou com artistas ou com ursos. As notícias da semana, que se concentram na expulsão dos rebeldes ou forças contrárias ao governo sírio da cidade de Allepo e na tragédia de proporções inimagináveis que isso representa do ponto de vista humano, têm russos no meio. O regime sírio só conseguiu essa vitória, se pode se chamar de vitória, com apoio de força aérea russa. Os russos mostraram, com apoio ao ditador sírio Assad, que continuam sendo uma potência militar e que, nos territórios considerados estratégicos por eles, não se brinca. Os Estados Unidos, mesmo enviando os aviões mais avançados do mundo para Israel, estão enfrentando, e parece que perdendo, as batalhas, do novo adversário velho, a Rússia.

Mas, é em outro campo que a batalha está mais interessante: as acusações de que a Rússia interveio nas últimas eleições dos Estados Unidos e mais: a favor do eleito Donald Trump. Bem, na verdade, Hillary Clinton se enterrou sozinha e nem precisou de ajuda. Sua estratégia deu errado. E que Trump, durante as eleições e depois, mostrou claramente que a Rússia não é o principal inimigo dos Estados Unidos, ninguém pode negar. Até a nomeação do novo Secretário de Estado, chefe da diplomacia norte-americana, teve como base a sua amizade com o presidente russo Putin e sua capacidade de tecer acordos favoráveis aos negócios norte-americanos.

Se for verdadeira a alegação de que os russos, através do uso da informática, influíram nas eleições, cabe uma outra pergunta ainda mais aterrorizante do que a afirmação do governo de Obama: os Estados Unidos perderam a guerra cibernética, onde a Rússia, mesmo com as sanções que lhe impuseram tanto os Estados Unidos como a União Europeia, está anos luz na frente da chamada maior potência militar do mundo, os Estados Unidos? Ou seja, os russos estão ganhando a guerra nas estrelas? Se os Estados Unidos podem nos espionar, os russos intervêm nos sistemas cibernéticos e mudam os resultados políticos?

É um mundo assustador, onde nos cabe vender minério, milho, soja e carnes, mas nessa guerra estamos na idade de pedra.

Monday, 12 December 2016

DAS CHUVAS E TROVOADAS

DAS CHUVAS E TROVOADAS

Dezembro e, em especial, janeiro, são tempos de muitas chuvas e trovoadas. Os novos prefeitos, entre os quais há muitos sábios, já estão se preparando para as chuvas de verão, que fazem os rios crescerem, os barrancos descerem, os bueiros e as bocas de lobo entupirem, a luz desligar, os sinais  de transito piscarem ou então apagarem, as estradas serem interrompidas, sem falar nas estradas de terra, que viram lamaçais intransponíveis e campos cheios d’água sem poder nem semear e nem colher. Pode ser que tenhamos um ano recorde de safra de grãos, mas, e os preços, e vender para quem? E todo mundo está torcendo para que o ano acabe, aliás este de 2016 não acaba nunca, como se o ano novo gregoriano de fato não tivesse nada a ver com o ano que passou. E nessa agonia com chuvas, desemprego, águas, quem mais sofre é o pobre do barraco, nem lembrado na desgraça, e cheio de promessas de políticos de que vão resolver os problemas que nunca são resolvidos.

Mas, é a meteorologia  política que traz trovoadas incomparáveis neste verão. Em Minas, a incerteza da certeza de situação politico-jurídica do governo Pimentel, que está na corda bamba, com a situação financeira fazendo resolver na ponta de lápis a despesa de cada dia, nos leva a pergunta quem vai investir em um estado que se diz quebrado e não pode cumprir com os seus compromissos. E, justiça seja feita, Minas Gerais não quebrou nesta gestão, mas esta quebrado e não foi consertado há muito tempo. Os últimos três governos antes deste fizeram um choque de gestão, que resultou  em que mesmo? Na quebradeira de hoje.

Se faltavam na literatura brasileira romances policiais com a qualidade de um Paulo Coelho, foi neste verão que essa lacuna foi preenchida: os documentos da delação premiada dos empreiteiros brasileiros. O best seller nessa coleção interminável é a delação da Odebrecht, a empresa baiana de  engenharia, cujos tentáculos no tecido político brasileiro estão em câmaras de vereadores, partidos políticos, prefeituras, governos de estados, e no Congresso nacional.

Conforme o relato publicado neste fim da semana, a aliança empresarial, da qual participou, como está escrito na delação, a entidade máxima da indústria, Confederação Nacional da Indústria, com o Congresso, este, com exceções que confirmam a regra, se movia e legislava a favor dos interesses empresariais e seus lucros e não do povo. Era a casa de negócios e não a casa do povo. Aliás, provavelmente, isso acontecia  na escala vertical até Brasília, em cada um dos quase seis mil municípios que temos no país .

Como se proteger, como não se indignar e em um  ambiente meteorológico político desses, nunca antes visto no nosso país, ou sempre existente, e nós de avestruz, não querendo enxergar nada, é  a grande questão. Não dá para não estar envolvido porque o governo que está aí pode prometer maiores  bondades na economia, mas sempre ficará a pergunta: fizeram para beneficiar quem? E podem entregar, cumprir o prometido? E a dúvida mata, nos recolhe a uma atitude defensiva: proteger-se das chuvas e trovoadas até tempos melhores.

Sunday, 11 December 2016

DAS PREOCUPAÇÕES EUROPEIAS

DAS PREOCUPAÇÕES EUROPEIAS

Este ano que quase terminou foi um ano de muitas surpresas  na Europa. Não só não terminou o conflito entre a Rússia e a Ucrânia, e portanto entre  a União Europeia e a Rússia, como também não terminaram as invasões de imigrantes africanos e do Oriente Médio, vindos através do Mediterrâneo ou via Turquia-Grécia. Também não foi fácil em relação aos atentados terroristas, este ano, especialmente na França e na Bélgica. Além de alguns desastres de trens, como os da Espanha e Itália. Em resumo, no  velho continente não houve guerra, mas em  compensação também não houve tranquilidade.

E entre as novas preocupações, está a eleição do novo presidente dos Estados Unidos. Na área do comércio, não se sabe ainda a postura do Trump em relação ao acordo de comercio entre União Europeia e Estados Unidos. Esse acordo aumentaria em muito as exportações europeias para um dos maiores mercados mundiais. Mas, também não se sabe como Trump vai agir na área de defesa, onde a maioria dos países europeus, junto com os Estados Unidos, formam a OTAN, aliança de defesa. Durante a campanha, Trump salientou que cada um se defenda como pode e que Estados Unidos não vão cuidar da defesa de terceiros. Nesse capítulo, também entra a questão da Ucrânia, apoiada pela União Europeia e os Estados Unidos, contra a Rússia. E quem sabe se Trump não se torna mais amigo do Putin do que os europeus gostariam.

No meio desse retrato, que mais parece um quebra cabeça, não se pode esquecer a saída de Grã Bretanha da União Europeia, processo chamado de  Brexit. Neste momento, tudo indica que ninguém de fato sabe  como isso vai acontecer, e nem os números foram fechados de lucros e perdas. E falando em referendum, tão em moda na Europa para aperfeiçoar a democracia, também não se sabe como se vai reorganizar a Itália após o referendum do último domingo, que rejeitou as reformas do sistema político propostas pelo jovem primeiro ministro Renzi. O incrível é  que, mesmo todo mundo criticando o sistema politico ineficaz e caro (a Itália tem 300 senadores), a população foi convencida pelos populistas que é preferível assim do que se modernizar.

Aliás, um dos cenários mais temidos na Europa é o crescimento do populismo e, em especial, da direita. Além dos governos de direita, como o de  Orban, na Hungria, o temor de crescimento da Le Pen na França  (que no caso de vitória nas eleições presidências no próximo ano levaria à saída da França da União Europeia), ou na Holanda,  tivemos a feliz derrota da extrema direita nas eleições presidenciais no domingo passado na Áustria. Se os extremistas da direita ganharem eleições importantes, o quadro europeu muda para um conflito de proporções nada desejáveis.

E a isso devemos adicionar a crise de desemprego, crescimento lento, reorganização do setor bancário italiano, para não dizer que não faltam problemas, mas soluções consensuais, seja pela União Europeia como conjunto de estados ou pelos países individualmente.

Monday, 5 December 2016

DOS CONSELHOS PROFISSIONAIS

DOS CONSELHOS PROFISSIONAIS

A ideia de juntar profissionais de uma determinada área em uma associação, chamadas guildas (por causa de fundo mantido em ouro, guld) e estabelecer critérios de qualidade de exercício da profissão e limites de número de associados,  começou  no ano 1000, quando foram fundadas também as universidades de Bologna na Itália (1088) e Oxford, na Inglaterra (1096). As sociedades de profissionais com hierarquia clara e ascensão rígida na profissão se mantiveram muito ativas nos séculos XV e XVI. A carta patente era concedida pelo rei, ou seja, o estado. E o acesso à associação era hereditário.

Nos países novos, descobertos na idade média, essas associações não se estabeleceram da mesma forma que na Europa. Guildas, dizem os historiadores, eram associações de profissionais que faziam ao mesmo tempo as vezes de sindicatos, cartéis e também sociedades secretas. No Brasil, temos sindicatos de trabalhadores, de empresas e conselhos profissionais. Para as categorias, há obrigatoriedade de contribuição. Não ha escolha, mas a lei exige que você faça parte de uma dessas organizações.

No caso dos conselhos profissionais, há obrigatoriedade de registro de empresas e indivíduos. Por exemplo, uma empresa de contabilidade, deve se registrar como empresa e todos os seus profissionais devem ser contadores. E se não o fizer, vêm inspetores de conselhos, com escrito pomposo no carro: fiscalização federal e multam a empresa e os profissionais.  Nas empresas que possuem atividades múltiplas, como a indústria, devem estar registrados todos os profissionais, por exemplo, engenheiros, químicos, eletricistas, enfermeiras, médicos, administradores, psicólogos, representantes comerciais , jornalistas e não sei mais o que.

Tudo isso custa muito dinheiro. Que é preciso haver regulamentação de certas profissões que representam perigo para a saúde das pessoas, não há dúvida . Os advogados, no modelo mundial, criaram a OAB e exame para o exercício da profissão. Mas, que nos perdemos totalmente o bom senso na criação dos conselhos profissionais (aliás em nada diferem das guildas medievais) e impingimos  enorme custo  aos profissionais e às empresas, também é verdade. A maioria dos conselhos são  uma sociedade fechada, sem nenhuma transparência (nunca vi algum conselho publicar balanço), ameaçam os profissionais se não pagarem a contribuição( o que alias é  exigido pela lei) e tem um enorme patrimônio, sem fazer  nada para os seus associados. Porque, se fizessem, não teríamos inclusive um monte de profissionais  e escolas de péssima qualidade.

Ninguém calcula o custo disso, e ninguém quer discutir. Mas, se quiser ter um Brasil com mais empregos e empresas competitivas, essa caixa preta das sociedades secretas terá que ser aberta.