Friday, 29 January 2016

DA PÉRSIA E IRÃ

DA PÉRSIA E IRÃ

A milenar história  da Pérsia, um país  de extraordinária contribuição à  humanidade, continua nestes dias no Irã, após o acordo nuclear entre as potências mundiais voltando à cena mundial. Passados 16 anos sem visita de nenhum presidente iraniano, finalmente o atual Rouhani visita a França, oVaticano e a Itália. Independentemente do protestos de ativistas de direitos humanos pela Europa afora e de estatuas  na Itália cobertas para não ofender os visitantes, ou do almoço presidencial na França  cancelado porque os franceses não retiraram do menu o vinho, proibido para os muçulmanos,  a volta foi um sucesso de negócios.

Os negócios que os italianos fecharam ficaram bem mais discretos do que os dos franceses. A venda de 114 aviões Airbus no valor aproximado de 25 bilhões de dólares, mais a abertura  de fábrica da Peugeot-Citroen, com investimentos de 400 milhões de euros, além de negócios na área de ferrovias e infra estrutura, são para os franceses um real refresco na economia,  que precisa de gerar empregos. Os europeus estão correndo atrás de negócios no Irã após o levantamento de sanções, como se o país tivesse sido descoberto ontem, e não um parceiro secular.

A Europa abriu as portas, créditos para o Irã, os Estados Unidos ainda não chegaram com todo o seu potencial econômico , e o  preço do petróleo que sustenta a economia iraniana está só caindo. Ou seja, os negócios se fazem na base de crédito governamental com garantias dos governos  para os exportadores. Isso vale também para a Siemens, que fechou um contrato de 1.6  bilhões de euros.

Mas, a parte política e a inserção do Irã, um player fundamental no Oriente Médio, ainda estão longe de serem resolvidas. O Irã  vai continuar todo o esforço para ser uma potência militar na região e em nada reduziu sua animosidade contra Israel. E nem os países europeus exigiram dele que eliminasse as ameaças contra Israel. Aliás, nisso acompanharam os Estados Unidos.

Nesse contexto, como fica o Brasil, que estabeleceu relações diplomáticas com o Irã já em 1903 e mais recentemente tentou intermediar um acordo nuclear que no final  foi concluído sem a presença brasileira. O nosso comércio caiu de 2.3 bilhões de dólares em 2014 para 1.67 bilhões  em 2015. O Ministro Monteiro, que liderou uma missão empresarial em outubro último, com 33 empresas, disse que  em 5 anos vamos aumentar as nossas exportações em 5 vezes. Nas base de que produtos, ninguém sabe. Agora tudo mundo esta lá, e nos só vamos exportar mais via multinacionais que estão presentes aqui, se elas forem competitivas. E mais: os investimentos vão para lá, e não para cá. Perdemos o bonde. O Irã tem outros interesses e outras ofertas melhores que as nossas.

Tuesday, 26 January 2016

DO SĀO PAULO 462

DO SĀO PAULO 462

A Pauliceia comemora em um dia de céu de brigadeiro seus 462 anos de fundação da cidade. A Avenida Paulista, vértebra da cidade, cedeu o lugar à festa com a Orquestra Bachiana Filarmônica SESI-SP, executando, perto do Museu de Arte Moderna de São Paulo, MASP, músicas  clássicas no meio de centenas de outros programas culturais que se espalham pelas cidade, maior metrópole da América Latina. A Avenida Paulista, que ontem foi e amanhã será de novo palco de protestos contra e a favor do governo, torna-se veia de integração, diversidade e sustentabilidade da locomotiva do Brasil.

Mesmo com o crescimento de outras economias regionais e outras cidades, São Paulo, uma cidade chata, mesmo com bons restaurantes, para os cariocas, às vezes com uma garoa que refresca  o andar, ainda é a síntese do Brasil. Nenhuma cidade tem tantos imigrantes,  sejam do Brasil ou de outros países, como São Paulo. Mineiro então aqui é referencia, respeitado, e virou paulista. Os filhos de nordestinos também. Mas, como italianos, árabes, judeus, eslovenos, alemães, e mais milhares de outras origens e nacionalidades, todos viram paulistas. Não quatrocentões tradicionais, mas construtores de uma cidade que não para de crescer, de se encontrar todo dia com o seu futuro.

Com a saída de industriais para  o ABC, Santo André, São Bernardo e São Caetano, e mais para interior do Estado ou até para o sul de Minas, a cidade se reinventou com serviços e tecnologia. Com a melhor universidade brasileira, a USP, eco do sistema de inovação, prolifera junto com os capitais financeiros, transformando-se de cidade de indústria em cidade de inovação. E avança em um sistema coordenado entre todos os  interessados, sem a competição política tão querida, por exemplo, em Minas.

São Paulo pode não ser nominalmente a capital do Brasil, mas sem ela não se faz nada. Nenhum visitante estrangeiro ilustre ignora, quando visita o  Brasil, São Paulo. São Paulo tem, depois de Nova Iorque, o maior número  de representações diplomáticas  e consulares chefiadas por diplomatas  da mais alta qualidade. O mundo entende que, em São Paulo, renovada todo dia, é onde no Brasil se faz e se decide.

Bem, os mineiros que tanto emigram para cá, não têm uma relação de parceria  com a Pauliceia. São poucas as empresas mineiras presentes aqui, os políticos esqueceram a fase de café com leite, e São Paulo anda e Minas fica. Onde sempre esteve.

Sunday, 24 January 2016

DAS INCOMMODITIES

DAS INCOMMODITIES

Nos livros escolares de geografia na antiga Iugoslávia, lá na década de 50, tinha uma foto no capítulo Brasil de queima de estoques de cafés nos idos de 1920. Queimavam café, dizia o livro, para manter o preço do café no mercado mundial. Bem,  atualmente os preços de todas as materiais primas e produtos agrícolas atingiram seus níveis mais baixos dos últimos 30 anos, ou em alguns casos até mais. Mas, isso todo fazendeiro, até de Entre Folhas, sabe. Aliás, todos sabem que os preços dado materiais primas, e tudo o que se produz nas fazendas chamado modernamente de agro business, varia de preço e que o Brasil não tem a mínima influencia nesse mercado.

Primeiro que o Brasil não vende, é  comprado. Os compradores vêm e negociam os contratos, financiam até a produção e os estoques e comercializam. No caso do café, ainda temos a total predominância de empresas de capital estrangeiro no mercado nacional. Se juntar todas as empresas mineiras de café  que tem dono mineiro, não dá uma Sara Lee brasileira, que é um dos mais importantes players no mercado mundial de café. Sem falarmos na Illy, que domina mercado dos cafés finos de um lugar onde não se produz nem um grão de café.

Todo o esforço de fazer cafés gourmets e concorrer com Alemanha, que é maior exportador de café torrado do mundo, não mudaram o modelo de negócio do produtor mineiro: mais vale a pena vender em grãos do que investir em branding  e comercialização. Claro que há exceções, mas elas não mudam essencialmente o cenário.

No caso dos minérios, o retrato é ainda mais dramático. Como no item petróleo, em que os preços estão chegando a níveis assustadoramente baixos, os minérios também estão na bacia de alma. O fato é que estamos vivendo um ciclo de preços baixos dos produtos que Minas produz, ou  que Minas queria produzir, como achar gás e petróleo no Vale do São Francisco. Acabou a bonança mineira, acabou a ilusão de que o Estado de Minas tem riqueza. Tem, mas vale pouco. E a essa realidade, temos que adaptar os custos, mudar os modelos de negócios, a percepção do estado e do seu governo da economia.

As cordas que puxam esses movimentos da economia não estão em nossas mãos, estão fora do país, fora de controle. Sequer temos especialistas que sejam capazes de resposta a um novo paradigma econômico. E perdemos tempo em não termos feito as mudanças de paradigma enquanto ainda dava tempo.

Sunday, 17 January 2016

DO DAVOS 2016

DO DAVOS 2016

Nos Alpes suíços, numa aldeia chamada DAVOS,  reúnem-se todo ano a elite empresarial mundial e políticos para se atualizarem sobre o mundo e seus destinos. O Fórum Econômico Mundial é uma realidade que este ano reúne 40 chefes de Estado e de Governo e mais 2500 participantes. Além de europeus, asiáticos, como o dono do  site Ali Baba, os americanos, sob a liderança do Vice-Presidente Biden, seu ministro de finanças e outros ministros do governo norte-americano, terão a oportunidade de conversar com vários latino-americanos, como a estrela ascendente Macri, o novo presidente da nossa vizinha Argentina. Estará também o presidente da Colômbia, e mais alguns outros menos  importantes.

Nesta segunda categoria está a delegação brasileira, cuja maior estrela será o Ministro da Fazenda Nelson Barbosa. Claro que haverá painel sobre o Brasil e muita, mas muita conversa, nos bastidores, sobre a economia brasileira. Inúmeros executivos de empresas que têm investimentos pesados e de muitos anos no Brasil querem saber se esta crise vai demorar, se a queda do nosso PIB prevista para este ano vai ter efeitos nefastos, e ainda por quantos anos, e, não por último,  se este governo agüenta até o próximo Fórum, em janeiro do ano que vem. Perguntas e mais perguntas, e respostas que devem convencer, para que o fluxo de investimentos volte ao Brasil.

A crítica de que a Presidente Dilma não foi e as estatísticas quem foi ou não, são pura bobagem. A presença da Dilma na boca do lobo não vai ajudar a crise brasileira e nem convencer os empresários de que soluções estão próximas. Aliás, neste capítulo, nem Nelson Barbosa vai convencer muito. Quem convence são os fatos e atos, mudanças nas atitudes do governo e seus políticos na gestão das finanças  públicas. O resto é a ilusão e enganação. E mais, ficar vangloriando na imprensa brasileira o presidente argentino e dizendo que Dilma deveria estar lá, é desconhecer como funciona esse fórum. Nos não estamos num concurso de beleza e se a gestão Macri for bem sucedida, só podemos lucrar.

Os temas de Davos, sofisticados, escondem a grande preocupação com  a freada do desenvolvimento chinês, a queda de preços das commodities e do petróleo, o conflito no Oriente Médio e o crescimento do terrorismo islâmico e a emigração para a Europa. A máquina de fazer boa imagem do criador do Fórum, o Sr. Schwab, faz Photoshop do momento e da cruel realidade. Portanto, há sempre que ler o que acontece lá nas entrelinhas. Além do mais,  uma boa parte dos empresários brasileiros, tão elogiados pelo mesmo senhor, hoje estão envolvidos no processo Lava Jato ou então, como Eike Batista, sumidos.

Mas, onde está o Fórum  Social Mundial, alternativo a Davos? Era uma contraposição interessante e fazia o mundo um pouco mais interessante e quem sabe mais justo.

Monday, 11 January 2016

DO EL NIÑO ECONOMICO

DO EL NIÑO ECONÔMICO
Este ano, mal começou, já tem Carnaval. Mas, mesmo assim, na área de negócios, a continuidade de um ano com muita turbulência política, uma massa de desempregados com os quais o país não sabe conviver, aumentos de impostos e de  preços, colocam ao empresário uma pergunta simples: o que faço aqui e agora.
Primeiro, nem tão pouco há o que fazer em termos macro, seja econômicos ou políticos. É só acompanhar o seu deputado estadual ou federal e dizer a ele o que você pensa, ou o que você acha que são seus interesses. Ele foi eleito para representá-lo, e, se está fazendo o quer e contra seus interesses, cabe a você lhe dizer isso, invés de falar que os políticos não prestam. Nesta mesma linha, vale a pena ver o que fazem os vereadores, estes marajás locais, que têm muito mais poder, junto com os prefeitos, do que nos queremos admitir. E faltam as entidades empresariais: seus dirigentes estão aplicando os recursos para o bem da comunidade empresarial ou para o seu próprio bem? Sua opinião política expressa seu interesse de servir aos seus negócios, ou representam de fato o interesse da comunidade empresarial?  E se você não se pronunciar, acontece o mesmo com os políticos: nada, e tudo contra você.
No segundo plano é que esta o melhor remédio, mesmo que amargo, para sobreviver esta transição política, econômica e financeira que estamos vivendo. O Brasil só vai começar um novo ciclo daqui a alguns anos, se a liderança política fizer as mudanças necessárias para tanto. E você não tem tempo para esperar.
A primeira e mais importante atitude é você aceitar que daqui para a frente tudo será diferente. Mudou o modelo econômico do país, de crescimento e estabilidade, para inflação e instabilidade. Amém. Outros tempos, outras estratégias, outras táticas, outras atitudes. Quais? Bem, você, seus sócios  e seus funcionários sabem melhor do que qualquer um. Já está tarde para que o projeto de enfrentar a situação seja só do dono da empresa ou dos executivos. O interesse é de todos, e as propostas podem ser excelentes se vierem de todos.
E não se esqueça também da mão firme no caixa e do olho no mercado, ou como dizia meu pai açougueiro: o freguês é que importa.
Político nenhum vai ajudá-lo na sua empresa. Você a fez, seja como dono ou como executivo, e só você pode enfrentar esta tempestade de El Niño econômico que vivemos.
STEFAN SALEJ

Friday, 8 January 2016

DO JANEIRO INSTAVEL

DO JANEIRO INSTÁVEL
Acabam as festas, na próximas semana ainda temos o Ano Novo dos ortodoxos, ou seja da maioria os povos eslavos, e daqui a três semanas, o carnaval.  Mas, nada melhor do que enfrentar a  instabilidade de todos os tipos nestes dias com as reservas  de energia acumulada  durante os feriados de dezembro. Assim, o teste da  bomba de hidrogênio, feito pela Coréia do Norte, esquentou o ambiente politico internacional. Os protestos  pelo mundo afora de um lado, e descrença de muitos cientistas afirmando que a bomba sequer existiu, não deixaram a marca do medo e duvidas. No final das contas a vizinha Coréia do Sul, que recentemente abriu seu Consulado em Belo Horizonte, foi um dos maiores compradores de armamentos norte-americanos no ano passado.
Outro comprador bom, a Arábia Saudita, também não deixou por menos. Executou um grupo grande de dissidentes  e, entre eles, um clérigo islâmico xiita, o que  provocou um protesto dos xiitas da região liderados pelo Irã e o rompimento das relações diplomáticas entre os dois países, acompanhados por seus vizinhos menores. Xiitas e sunitas continuam resolvendo suas diferenças na região e pelo mundo afora trazendo uma instabilidade indesejável. E mais: o Irã testou novos mísseis de longo alcance sem muita preocupação com o que o mundo pensa ou não deles.
No campo econômico, o terremoto maior foi o ajuste da economia chinesa. Não foi só a bolsa que caiu de novo, mas caiu também o preço do petróleo ao nível mais baixo dos últimos  dez anos. Como o Brasil é dependente do crescimento chinês e do ajuste dos preços das matérias primas, esses eventos nos afetam mais do que imaginamos. O superávit da balança comercial de 2015 só poderá servir de colchão para pagar as contas externas em 2016. Aliás, ninguém explica se a exportação cresceu, mas todo mundo fala só da importação  que encolheu. E com a desvalorização da moeda chinesa, o yuan, os chineses vão invadir o mundo com seus produtos, tirando inclusive como aconteceu na Argentina, produtos brasileiros da prateleira do importador.
Imagine se os fatos de tão longe nos afetam tanto, como então interpretar os eventos na Venezuela. A nova Assembleia Nacional, dominada  pela oposição, tomou posse. Oficialmente começou um conflito de poderes cujas consequências  são totalmente imprevisíveis. Mas todas apontam para uma solução não democrática.
O ano mal começou. E começou bem agitado.