Sunday, 30 August 2015

DOS HOMENS E DO DINHEIRO

DOS HOMENS E DO DINHEIRO

O  que chama mais a sua atenção: a queda das bolsas e a perspectiva de dificuldades econômicas na China ou a descoberta de mais de 70 corpos  de refugiados africanos em caminhões na Áustria? Ambos são eventos mundiais que apareceram nas primeiras páginas  dos jornais na semana que passou. De um lado, tremor financeiro, de outro lado, crise humanitária com os refugiados africanos e do Mediterrâneo invadindo a Europa.  A Hungria constrói muro com Servia para impedir a sua entrada. A Itália, salvando milhares  deles no mar, mas ao mesmo tempo centenas deles morrem afogados.

Crises previsíveis ou não? A crise financeira, cujos tremores estão acontecendo ainda, é crise de bonança, de ganância, de dinheiro. É  previsível e faz parte do jogo do poder  e jogo de ganhar com especulação.  Demonstra o poder incrível que hoje a China adquiriu nos últimos 30 anos. Todas as economias dependem da China e a nossa ainda mais. Os chineses conseguiram baixar os preços das matérias primas a níveis quase inimagináveis e com certeza extremamente prejudicais aos países emergentes. Conseguiram dominar o mercado manufatureiro e o comércio mundial.

Nós ocidentais temos enorme dificuldade em entender 6000 anos de história  chinesa. De entender a sua cultura, seu interesse nacional, suas ambições e as situações que a China viveu. Não faz nem setenta anos que acabou a brutal ocupação japonesa da China continental. E que os Estados Unidos criaram um estado artificial chamado Taipei, e que Hong Kong e Macau eram colônias britânica e portuguesa. A China não se preocupa com o mundo, mas o mundo esta cada vez mais preocupado com ela. E, principalmente, a preocupação é econômica e financeira.

Nesse cenário, a crise humanitária que vive a África,  onde não por acaso os maiores investidores são os chineses, bate durante as férias europeias como um tsunami na porta da Europa. Aquela Europa que foi a principal força  colonial no continente. Até hoje na Namíbia, onde a Alemanha imperial dominava, tem nome das ruas em alemão. E a Europa, que abandonou o continente, só se interessando em explorar suas riquezas para ela mesma se enriquecer mais, esqueceu simplesmente as pessoas. Esqueceram a gente.
Agora chegou a conta da verdade. O discurso sobre direitos humanos face à realidade. Lamentavelmente, a realidade de interesses econômicos está se sobrepondo à moral sobre a vida humana.  A Europa é incapaz de achar um equilíbrio e liderar mudanças mais profundas, que demonstrem que ela não continua essencialmente colonialista. A vida não vale nada, o que vale é o dinheiro.

Stefan Salej

Saturday, 22 August 2015

DOS GERMÂNICOS

DOS GERMÂNICOS

Há mais de cem anos, o jornalista norte-americano John Carpenter,  que escreveu um livro sobre a América do Sul, notava que o comércio entre os países hanseáticos, que hoje se chamam República Federal da Alemanha, e o Brasil  (que nesse período não mudou nem de nome e nem de território, não sendo palco de nenhuma guerra) era infinitamente maior do que com os Estados Unidos. E que os alemães, que vieram  para o Brasil há 200 anos, dominam o nosso comércio com a Europa.

A visita da chefe do governo alemão, Chanceler Ângela Merkel, e seus sete ministros, nesta semana, a Brasília (o Ministro das Relações Exteriores Steinmeir esticou ainda a visita a São Paulo,  com avião de carreira) reforça a importância das relações econômicas entre os dois países. Os acordos assinados não são significativos em valores, mas mostram uma abrangência estratégica da relação  entre os dois países. Alias, os alemães afirmam extremamente que essa aliança é estratégica. No Brasil, o capital alemão, em especial na indústria, predomina e suas mais de 1600 empresas estão firmemente fincadas no mercado brasileiro. Ninguém, apesar das clássicas reclamações sobre o custo Brasil e a  imprevisibilidade das políticos governamentais, está saindo do país. São empresas como a Siemens, que está no Brasil há mais de 100 anos, e a BASF, que aproveitou a visita para festejar 150 anos de sua  vida, dos quais 105 anos no Brasil.

Para o atual governo brasileiro, a visita da principal líder política da Europa se junta à visita presidencial a Washington e demonstra claramente que, nos encontros com nossos principais parceiros, e aí temos que incluir a visita do Vice-Primeiro Ministro da China, há um mês, e a próxima visita do Príncipe herdeiro do Japão,  todas as conversas giram de forma discreta porém firme em torno da estabilidade da democracia brasileira. Nenhum dos nossos parceiros, e os alemães estão muito firmes nisso, deixa de querer quer que se faça um eficaz ajuste fiscal e o país volte a crescer. O governo Dilma tem apoio para isso do exterior e a visita de Merkel reafirma esse apoio que, pela sua liderança na Europa, traz junto todos os 28 países membros da União Europeia.

Minas, que teve investimentos alemães importantes no século passado, está onde sempre esteve recentemente. À margem, apesar de que a embaixadora do Brasil na Alemanha é mineira.

Saturday, 15 August 2015

DA EDUCACAO INTERNACIONAL 1

DA EDUCAÇÃO INTERNACIONAL

As empresas querem exportar, precisam exportar, precisam se instalar fora do país para melhorar a sua receita e a sua posição competitiva. E na composição de vários fatores que entram para se alcançar o sucesso, bem na base de tudo, está a educação. Começa com a educação  básica, escola primária, vamos dizer assim. Não  só pelas condições básicas para os alunos estudarem e os professores terem a oportunidade de aperfeiçoamento, salários dignos e condições de ensino mínimas, mas também pelo currículo escolar. Vamos ao simples  exemplo da cachaça, que hoje um dos produtos mais importantes de exportação mineira. E ela não é  produzida nos grandes centros, mas nas regiões  onde tem muita mão de obra abundante e pouco qualificada.  E ai, é só um esforço conjunto de todos os atores envolvidos pode produzir bons resultados.

E apesar de muito discurso sobre  a educação e muito investimento feito, estamos longe de nossos concorrentes. Nas medições internacionais chamadas de PISA, o Brasil ocupa o 60o lugar  entre os 76 países pesquisados. E este resultado também corresponde  às nossas colocações na escala mundial quando comparamos inovação, competitividade e produtividade das empresas brasileiras. E tem mais: se melhorarmos a educação, teremos um bom crescimento do nosso produto interno bruto.

Além da educação  primaria, que está nos níveis primários mesmo, temos a educação profissionalizante. Na semana que passou foi realizado o  campeonato  mundial, Worldskills, em São Paulo onde jovens  de 50 países  competiram em inúmeras profissões. O Brasil, e  também Minas, que teve uma participação significativa, não se saíram mal. Melhor do que nas avaliações do ensino básico. Temos campões sim, mas continuamos, apesar de uma esforço louvável do Sistema S (Senai, Sesi, Senac, Sesc, Senar, Sebrae, Senat), ainda longe de poder dizer que o nosso ensino profissionalizante atinge a maior parte da nossa população jovem e se apresenta como a alternativa profissional para melhor a empregabilidade.  O Governo Federal, que começou bem com o programa PRONATEC, está  reduzindo recursos nessa área, enquanto o sistema S está  começando a ter menos recursos porque as empresas estão mal.

E o resultado disso não é só a redução do número de alunos,  nem a disponibilidade para aumentar a competitividade das empresas, mas mais jovens na rua. E haja a ilusão de que a desvalorização do real vai trazer competitividade às exportações brasileiras. Ilusão que custa caro.

Sunday, 9 August 2015

DA CONFUSÃO POLITICA

DA CONFUSÃO POLÍTICA

As notícias sobre a crise político-institucional e o degringolar da economia estão batendo como mar no molusco nas nossas cabeças. Toda hora, todo dia e nem no fim da semana temos sossego. Não importa se todos os dados mostram que de fato estamos vivendo uma crise econômico-financeira-política, mas também a tijolada de informações que recebemos de que estamos em crise é desproporcional. Talvez seja o fatídico mês de agosto, que sempre é mais agitado em termos políticos no Brasil do que os demais meses do ano. O fato é que estamos acreditando que todos os dados, sejam eles de atividades políticas, sejam econômicos, comprovam que estamos numa crise. A maior crise desde não sei quando, comparada a não sei qual crise. Estamos em crise.

Essa situação, prefiro chamar assim, não é nova, e ela está se alastrando  há anos. E não há duvida alguma de que está se aproximando a um ponto intolerável, em especial para os empresários, sejam de qual tamanho forem. Intolerável porque o crédito está caro, a inflação está subindo, os custos estão subindo, os clientes estão sumindo, e você não sabe quanto haverá uma mudança que vai permitir os negócios voltarem ao normal e com perspectiva de crescimento.

A nítida impressão que todos temos é que os nossos políticos estão mais perdidos do que cego em tiroteio. De um lado, os processos anti-corrupção como o Lava Jato andam rápido, mas não o suficiente para lavar tudo e acabar ou pelo menos diminuir o ritmo de corrupção no país, por outro lado a resistência a essa limpeza ética está aumentando e dando a impressão de que está ganhando a batalha. É a batalha entre David e Golias, mas David ainda não ganhou.

Você está no meio dessa briga, sozinho como cidadão trabalhador, simples, pagador dos impostos.  Foi abandonado pelo seu deputado, seja estadual ou federal, que gastou pelos últimos dados em media 4 milhões de reais para se eleger. Ele hoje cuida de seus próprios interesses na Câmara. E você sequer lembra quem é o seu Senador? Nem você dele, nem ele de você!

Mas, a vida continua. Volto as insistir: esse imbróglio político vai demorar a ser resolvido e ainda não se sabe como será resolvido. Muita podridão para ser resolvido fácil.

E ai não só lhe sobra a defesa e o ataque ao mesmo tempo no seu próprio negócio: esqueça a política e dedique-se à empresa e à família. Essas crises na história  brasileira são comuns, mas os políticos passam e as empresas ficam.

DAS DISPUTAS TERRITORIAIS

DAS DISPUTAS TERRITORIAIS

Na fronteira sul do Brasil, com o nosso vizinho Paraguai, foi criada uma situação política um tanto quanto incomum: os paraguaios alegam que as forças armadas brasileiras, durante um exercício militar na região, invadiram o território guarani. Claro que, além da nota diplomática, dizendo que o incidente, se existiu, será investigado, o exército  brasileiro negou o fato.

Ao norte, as tensões entre dois dos nossos vizinhos, Venezuela e Guiana, estão cada vez mais tensas e, na última cúpula do MERCOSUL em Brasília, ficou isso mais do que patente. A Venezuela reivindica parte do território da Guiana, a que a Guiana se opõe. O problema é simples: com o enfraquecimento do governo venezuelano, um inimigo externo sempre é bem vindo, ou então se inventa um, par que os problemas domésticos desapareçam, o poder do governo aumente e o patriotismo ganhe, mesmo às custas de vidas de  cidadãos inocentes. Vamos relembrar o caso das Ilhas Malvinas e a batalha entre as forças argentinas e britânicas,  há mais de vinte anos. Ninguém ganhou e muitos perderam a vida, sem saber até hoje porquê. E nenhum político  argentino ou general no poder  na época foi condenado  por causa disso.

A América Central, onde teve até a chamada guerra  do futebol entre Honduras e a Guatemala, continua sendo o palco de escaramuças. Hoje existem problemas entre o Haiti e a República Dominicana, devido à invasão da República Dominicana por imigrantes haitianos. Mas, esta é a menor das guerras por lá. O grande problema são as gangues, em especial juvenis, que dominam a violência na região e estão invadindo os Estados Unidos. Essa situação, totalmente desconhecida dos brasileiros passou a ser um dos mais graves problemas da América Central. É uma disputa não clássica de territórios e de conflitos sociais internos, ultrapassando as  fronteiras clássicas. E se a isso somarmos o ainda não resolvido conflito entre a guerrilha pseudo marxista, mas certamente de narcotráfico colombiana, chamada FARC, temos um quase completo retrato de América Latina (sem falar nas gangues de narcotráfico mexicanas) claramente conflituoso e divergente quanto à paz na região.

Não se pode também esquecer o conflito marítimo entre o Peru e o Chile, em vias de ser resolvido, mas por outro lado a pretensão boliviana de ter uma saída para o mar por parte do atual território chileno está longe de ser resolvida.

No final, podemos só agradecer ao Barão do Rio Branco, pai da nossa diplomacia, que o Brasil esteja territorialmente consolidado. Mas, nossos vizinhos, não. E isso não é bom.

Sunday, 2 August 2015

DAS PREFEITURAS QUEBRADAS

DAS PREFEITURAS QUEBRADAS

Centenas de prefeitos mineiros estão clamando que as prefeituras  estão quebradas. E muitos deles estão ameaçando fechar os serviços das prefeituras por falta de dinheiro. Esse clamor lembra a história de um cidadão que queria pagar uma conta com cheque de um banco com cinco estrelas, no que foi repelido pelo receptor dizendo que as cinco estrela do banco não valem nada porque o Brasil com 27 na sua bandeira está quebrado. Estamos quebrados: o Brasil, estados, prefeituras, empresas, os cidadãos. Portanto, o clamor das prefeituras não é único. Estamos todos mal.

O problema é que os prefeitos estão sofrendo um pouco mais do que os outros neste momento porque também, quando assumiram as prefeituras há dois anos e meio, ou continuaram com ré-eleição no cargo, não levaram em consideração as variáveis políticas que estavam se vislumbrando no horizonte. O fato é que os prefeitos, que são gerentes dos seus municípios, não se deram conta de que o  Governo Federal, cuja ré-eleição muitos apoiaram, vai deixá-los na mão devido à grave situação financeira da União e não vai cumprir suas obrigações. Erraram no prognóstico, confiando a sua gestão essencialmente à vinda de recursos da União ou do Governo do Estado.

Em outra vertente, também não olharam para o caixa  das prefeituras e perguntaram de onde vem o dinheiro. Se o dinheiro não vem dos dois governos, federal e estadual, como gerar desenvolvimento  econômico do município para que a crise seja a menor possível. São raros os casos de compreensão do desenvolvimento econômico pelos nossos alcaides, as exceções  que confirmam a regra são as prefeituras de Belo Horizonte, Camanducaia e Santa Luzia, entre algumas outras, que permitem que o impacto seja menor.

Os escândalos com altos salários dos alguns prefeitos e vereadores e míseros salários dos professores, levam a perguntar quantas prefeituras fizeram uma análise de custo, reestruturação de seus serviços  e de suas políticas econômicas. E alianças com todos na cidade para não resolver uma crise financeira que vai durar, mas fazer as prefeituras mais eficientes e eficazes para o cidadão.

Esta crise das prefeituras é a crise da cidadania e não vai ser resolvida pelo choro politico, aliás os prefeitos foram abandonados pelos seus deputados estaduais e federais, mas pela competência de gestão e liderança. Chorar e ameaçar menos, e trabalhar com  eficiência, serão as soluções. E elas passam por liderar um movimento de todos, porque o problema é de todos no município.

Saturday, 1 August 2015

DO MANDA QUEM PODE....

DO MANDA QUEM PODE...



A viagem do Presidente dos Estados Unidos  a dois países africanos, Kenya e Etiópia, assemelha-se, segundo o colunista Andrés Oppenheimer, muito às  suas viagens à América Latina. Bem, tem algumas diferenças, como o Kenya é país natal do pai do Obama e tem parentes lá. E a Etiópia, que na fase de descolonização tinha o Imperador  Baile Sallasie, que inclusive na presidência do Jânio Quadros visitou Brasil, tentando convencê-lo -lo a fazer parte do bloco dos Não Alinhados, é a sede da União Africana.  A visita do presidente do país mais poderoso do planeta ao continente mais pobre do mesmo planeta era exatamente para reafirmar a liderança norte-americana no mundo. E em especial reafirmar que Estados Unidos, como Obama deixou claro, não são só parceiros comerciais, não constroem obras com mão de obra estrangeira e nem exploram só os recursos naturais e deixam buracos.

Os Estados Unidos são parceiros em democracia, valores de desenvolvimento e ganha-ganha. Diferentes são os chineses, que tomaram conta da África, enquanto os Estados Unidos esqueceram, junto com a Europa, o continente negro. Agora, com taxas boas de crescimento e oportunidades que aparecem para as empresas norte-americanas, Obama foi acompanhado por um  grupo expressivo de empresários, que não querem nem perder essas oportunidades e nem deixar para os outros. Em Adis Abeba, capital da Etiópia, que junto com o Kenya tem os melhores fundistas do mundo, a delegação norte-americana visitou também  as instalações  da companhia aérea etíope, que já possui um Dreamliner  787 da Boeing. É aquele avião que leva  até  335 passageiros, enorme, e que nenhuma companhia aérea brasileira tem.

Mas  foi o discurso na União Africana  que ficou mais visível para o mundo e pode ser bem usado para os políticos no nosso continente. Não a corrupção, não a permanência eterna no poder (o amigo fraterno do Brasil e da Odebrecht, o presidente de Angola, está  lá há mais de 33 anos), e não o desrespeito aos diretos humanos. Isso se aplica a quase todos na África.

E se aplica a dirigentes na América do Sul. Os Estados Unidos, mesmo considerando a recente visita da Presidente brasileira a Washington e as mudanças na equipe diplomática no Brasil, reforçada com gente de primeira linha, não deixarão de exercer o papel de liderança democrática do mundo. Não vão alimentar nenhuma ruptura democrática, seja no Brasil, seja em outros países. Mas, como vão conviver com as ditaduras que fazem bons negócios com eles, e na África está cheio delas, é  uma pergunta sem resposta. A experiência da Primavera árabe que diga quão difícil é essa transição.

Stefan Salej