Sunday, 25 June 2017

DA CARNE FRAQUÍSSIMA



Dizem no interior de Minas que, quando urubu resolve mudar de rumo, sai de baixo. De todas as notícias na área política que afetam a economia, a pior delas é de novo a proibição de entrada de carne em natura nos Estados Unidos. Não porque aquele país ao norte do Equador seja um dos maiores importadores da nossa valiosa carne bovina, mas porque se você exporta para um país como os Estados Unidos, você tem uma referência de qualidade do produto e de serviços que os outros aceitam com naturalidade.  E como os nossos bravos exportadores conseguiram, depois de tantos anos de trabalho árduo para distinguir a carne do Brasil, Brazilian beef, dos concorrentes argentinos, australianos e irlandeses, entre outros, que nos testes de qualidade fossem rejeitados 11 % dos lotes ao invés do limite aceitável de 1%, todos explicam mas não tem justificativa.

As explicações técnicas são  inúmeras, desde a vacina (produzida por quem mesmo?), da dificuldade de se identificar o problema, até dizer que isso não tem nenhuma importância para a saúde e mais: que tudo isso é lobby norte-americano contra os exportadores brasileiros. Só falta dizer que os maldosos norte-americanos inventaram isso para derrubar o governo Temer. Porque, de fato, a proibição de entrada de carne brasileira nos Estados Unidos, vai afetar em muito, mas muito mesmo a nossa economia. Se depois da Operação  Carne franca, que já afetou nossas exportações, não aprendemos que devemos tomar mais cuidado com a qualidade dos produtos que vendemos, seja no mercado nacional (porque pelo jeito esse controle não é  feito para o consumidor brasileiro) ou para o exterior, então a situação está grave. Culpar o cliente que coloca normas claras para o fornecimento e você não as cumpre, não  é desconhecer  as regras de marketing do professor Kotler, mas as básicas do comerciante da Rua dos Caetés: freguês sempre tem razão. Em resumo, é de uma burrice e má fé inaceitáveis.

Essa mania de desprezar a inteligência dos outros não é nova. Há alguns anos exportávamos quiabo para a Franca. Que chegava podre. Porque? Porque trocaram a temperatura medida em Celsius por medida em Fahrenheit. E porque? Porque um super doutor que supervisionava a operação estudou nos Estados Unidos, onde se usa Fahrenheit, e confundiu. E lá se foi o quiabo.

O episódio de agora tem consequências trágicas para a imagem de carne brasileira e todos os produtos alimentícios. Nossas churrascarias nos Estados Unidos serão afetadas,  a venda de pão de queijo, que ia tão bem, de cachaça, tudo, tudo. Isso é como bola de neve, só vai piorar.

Mas, o pior efeito será na economia rural. A arroba do boi está só baixando de preço, e com certeza absoluta quem vai pagar o pato é o pecuarista.

Está certo o Ministro da agricultura ir para Estados Unidos para conversar com os gringos, mas o problema não está lá, mas aqui. A Carne Fraca foi um  aviso, a luz amarela pela qual passaram todos os frigoríficos. E agora acendeu a vermelha. Passou da hora de levarmos esses assunto a sério, fazermos as mudanças que precisam ser feitas, porque a chamada ilusão de que o setor agrícola sustenta a economia vai tornar realidade a frase: o boi foi para o brejo.

Monday, 19 June 2017

DE MACRI, MACRON, PUTIN,TRUMP E EMPRESÁRIOS NA POLÍTIC

DE MACRI, MACRON, PUTIN,TRUMP E EMPRESÁRIOS NA POLÍTICA

A vitória estrondosa de um partido político recém formado, Em marcha, tanto nas eleições presidenciais como parlamentares, numa das democracias mais solidamente organizadas do ponto de vista de partidos políticos, como da sociedade civil, ou seja na França,  nos leva à pergunta: os partidos políticos como os entendíamos até agora, acabaram? A vitória do mais jovem presidente francês, Emannuel Macron, em todos os campos políticos, inclusive nomeando ministros não pelos partidos mas pela representatividade que têm na sociedade civil e pela competência, significa o quê?

Primeiro, esse movimento de gente nova, não compromissada com esquemas políticos arcaicos, antigos, cheios de vícios, nada tem de novo nas recentes mudanças em vários países. O eleitorado esta procurando alternativas, que garantam melhor qualidade de vida, maior transparência, que em resumo ofereçam um futuro mais sólido para os cidadãos. Assim, em suma já foi a eleição de Obama nos Estados Unidos. E a ela se seguiu a eleição de um empresário imobiliário nova-iorquino, com um discurso absolutamente radical em relação ao governo anterior, para a presidência dos Estados Unidos. Trump.

Na vizinha Argentina, a mudança também foi radical. Depois de 12 anos de kircherismo, de marido para viúva, ganhou as eleições um empresário, que tinha sim experiência como prefeito da capital Buenos Aires, mas nas eleições foi “vendido” como gestor e empresário.  Aliás, os recém-eleitos no palco mundial, Macri, Trump, Macron, todos vêm da área empresarial (Macron foi bem sucedido diretor do Banco Rotschild), mas o Tzar da Rússia, Putin, que reorganizou o país, esse não veio, para confirmar a regra, mas surgiu dos serviços secretos.

Essa onda de quebrar os esquemas tradicionais da política, de procura do novo, mais eficiente na gestão pública, está permeando as democracias ocidentais. Mas, também na China, onde a estrutura do Partido Comunista  é rígida no comando do país, os que sobem são os eficientes gestores regionais. Mostra a eficácia na gestão de suas província que tem lugar na Praça Celestial.

E como isso fica no Brasil? A aliança espúria entre grupos empresariais brasileiros e política, espera-se, está morrendo. Mas, não morreu. O enfrentamento que estamos vendo entre um empresário da indústria de carnes e o presidente da república, mostra claramente em quanto essa espúria aliança entre política e empresariado prejudicou pais. O Brasil vai seguir os caminhos que por exemplo estão renovando a França? Tem lideres que podem, mesmo com criticas ao seu passado, e na área empresarial, em vista da complexidade das relações fiscais e dependência do estado, sempre se acha algo, apresentar ao eleitorado um futuro melhor? Estamos numa encruzilhada onde, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Um nó górdio, que, se não for desatado de forma que garanta estabilidade no futuro, será cortado, como na história grega.

Sunday, 11 June 2017

DE PORTUGAL E DOS IMIGRANTEs



Na semana passada, foi comemorado o Dia de Portugal no mundo inteiro e, em especial, no Brasil, onde as comemorações no Rio e São Paulo foram prestigiadas pelo Presidente e Primeiro Ministro, além de numerosa comitiva daquele país. Em Belo Horizonte, mais de 20 mil pessoas participaram da festa cultural e culinária. E assim foi pelo Brasil afora, uma homenagem não aos descobridores e colonizadores do Brasil, mas aos imigrantes portugueses que vieram ajudar construir este país chamado Brasil. E Portugal que no século passado ainda foi uma potência colonial (não nos esquecemos de Goa na Índia, Macau na Chinas e das “províncias ultra marinas" na África, como Moçambique, Angola, Cabo Verde e São Tome Príncipe) e um regime ditatorial aliado ao fascismo europeu, conseguiu com Revolução dos Cravos fazer umas transição para a social-democracia  cujo caminho passou até pelo sequestros de navios (Santa Maria) e a tomada do poder pelo Partido Comunista Europeu. A inserção de Portugal na Europa do século 21 não foi fácil e nem rápida e ainda continua na sua luta para ser um país mais justo e desenvolvido.

Mas, isso não impede os portugueses, nas melhores tradições de seus navegadores, continuamente procurarem exercer seu papel na política internacional. Por iniciativa do então Ministro da Cultura do Brasil, ilustre Jose Aparecido de Oliveira, foi criada a associação dos países de língua portuguesa, uma organização que hoje atua também fortemente na área política e, em especial, econômica. Os portugueses, com crise ou não, continuam investindo no Brasil com uma ousadia incrível e ao mesmo tempo hoje em dia oferecem facilidades para os brasileiros se instalarem lá, inclusive com cidadania portuguesa, sonho de muitos deles. Os episódios da guerra de dentistas, quando houve um boicote aos profissionais brasileiros, de uma forma injusta, são passado e hoje a cooperação está em outro nível, inclusive com a cereja no bolo das relações entre os dois países, a inauguração da escola portuguesa em São Paulo juntando-se às escolas americanas, britânicas, italianas, alemães, francesas e outras.

O Brasil que nestes dias, de forma pouco percebida, editou a nova lei de migração, é  um país de imigrantes. As pessoas que vêm são brasileiros que não esquecem seus raízes e cultivam as culturas de origem. Mas, também somos um país que lamentavelmente está perdendo talentos, cérebros e jovens trabalhadores e empreendedores o para exterior. A volatilidade econômica e política, a falta de emprego e de oportunidades estão levando de forma preocupante os jovens para exterior. Hoje tem mais gente saindo do Brasil, gente de talento, do que gente chegando ao Brasil. E esta reflexão não deixa de existir nas hora da festa e da alegria portuguesa.

Sunday, 4 June 2017

DOS INVESTIMENTOS EM TEMPOS DE CRISE

DOS INVESTIMENTOS EM TEMPOS DE CRISE


Na semana passada, foi  realizado em São Paulo, capital econômica do Brasil, um Fórum de Investimentos, com enorme presença de investidores do mundo inteiro. E mais, abençoado por políticos comandados pelo próprio Presidente da República e seus ministros, além  dos Presidentes da Câmara e do Senado e, claro, o Governador de São Paulo e o mais novo candidato à presidência do país, o Prefeito de São Paulo. Se isso se chama show, então foi um show de primeira que, em dois dias, deu razoável impressão sobre o interesse em investir no Brasil. Ou seja, a visão para além do dia de hoje, dias e semanas de tensão política, de um país cujas realidades geográficas e econômicas podem ser vistas além do mar de lama no qual estamos nadando.

Os investidores, pelo menos os maiores, tiveram uma conversa particular com o Presidente Temer. A pergunta que ficou após o Fórum foi se os políticos e governantes  convenceram os investidores de que  a crise política na qual estamos mergulhados vai atrapalhar as reformas e quanto tempo vai durar. Aliás, quanto tempo vai durar o governo que se expôs no Fórum e repetiu a ladainha mais antiga, de que o Brasil é maior do que a crise. A impressão que ficou é que cada um dos participantes se fechou em copas com seu pensamento, esperando os fatos confirmarem ou desmentirem os entusiásticos discursos dos ministros e políticos presentes.

O investidor, independentemente da sua origem nacional ou tamanho, espera que a ordem jurídica seja reconhecida, que haja estabilidade de regras para os investimentos e que haja a remuneração para o seu capital. Na semana anterior ao fórum, o BNDES mudou regras de financiamento e mudou o seu presidente. Na semana do Fórum, Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro votou uma lei que obriga os bares e restaurantes fluminenses a oferecerem obrigatoriamente cachaça  produzida no estado. Exemplo do trumpismo carioca, obrigando o consumidor a beber cachaça de pior qualidade. E na semana posterior ao Fórum, a Assembleia Legislativa de Minas vota, ao mesmo tempo que um Refis, um aumento de impostos para a gasolina e o  álcool e a compra  de produtos via internet e a isenção de impostos na compra de aeronaves e equipamentos que beneficiem alguns industriais que apoiaram o aumento dos impostos dos outros e mantêm posições institucionais.

Em resumo, o clima de incerteza não é só no nível federal; também  nos estados as regras mudam para os investidores. Oferece-se muito no início e tira-se mais depois. E sempre se dá mais para quem  vem de fora, desprezando-se  quem já está instalado. O Brasil está barato e hora de investir é na crise, mas quanto tempo esta crise vai demorar? Também fica cada vez mais patente que o Brasil não aceita mais investimentos tecnologicamente atrasados. Os investimentos têm que representar a ponta de tecnologia e não trazer atraso ao consumidor.

A batida frase, que crise é oportunidade, pode valer para este momento, mas os esforços devem ser menos para promover um Brasil barato, e mais para fazer as mudanças em todos os níveis do governo, para que as empresas possam  ser competitivas em escala mundial. Este esforço, e não vamos nos iludir com algumas reformas, deve ir muito além, para trazer investidores que criem mais empregos e empresas mais eficazes.

Wednesday, 31 May 2017

DO REFIS FEDERAL E ESTADUAL

DO REFIS FEDERAL E ESTADUAL


Mais velho do que a serra, é o ditado: aperta a roda e solta. Assim é a nossa política tributária em todos os níveis: apertam o cidadão, as empresas, os contribuintes, até não poder mais, seja com regulamentos, leis, fiscalização e não sei mais o que, convencem que pagar em dia, mesmo que quebre a empresa, é um dever cívico e, depois que quebraram todos, vêm com programa de refinanciamento de dívidas fiscais. Ou seja, pressupõe-se que as empresas não pagam os impostos e contribuições fiscais, trabalhistas e sociais porque não querem e acham que têm que sonegar. Ou será que alguém perguntou se, em princípio, não pagam porque simplesmente não conseguem pagar. Não conseguem porque o modelo tributário no país está quebrando as empresas, mais do que qualquer outro fator econômico.

Aí, os governos vêm com a bondade de REFIS, que permitiria em síntese que os impostos atrasados fossem pagos em prestações, mas a condição é que daqui para frente tem que pagar em dia. E a roda viva de impostos pega de novo: daqui a uns tempos as empresas atolaram-se de novo e pedem de novo um refinanciamento. É uma roda gigante de paga-não-paga-refinancia-paga-não-paga-refinancia. O fisco reclama que as empresas tiveram benefícios enormes no refinanciamento e prejudicaram as finanças públicas e que os empresários mal intencionados mais uma vez foram beneficiados (nem tanto como irmãos Batista do JBS, dos quais poucos reclamam) e que o estado perde.

Mas, a raiz do problema é que no nosso sistema tributário, ninguém mexe. Ou melhor, nossas políticas econômicas, sejam no nível federal ou estadual, e diria até no nível municipal (você tem vários municípios, como São Paulo, Rio de Janeiro e BH, maiores do que alguns estados). Simples: com a máquina pública em todos os níveis desgovernada, com custo alto e eficácia baixa para a sociedade, a política tributária que a acompanha só produz desastres fiscais. As empresas não têm competitividade porque a carga e a complexidade fiscal matam todo o esforço, tanto dos operários como dos empresários. Temos que pagar salários que são parte da compensação dos custos pela alta carga tributária.

Em resumo, sem reforma tributária podem fazer quantos REFIS quiserem (o Estado de Minas está fazendo o dele agora, por sugestão da Associação Comercial de Minas) que nada muda, se não mudar a complexa legislação tributária e melhorar a gestão do Estado como um todo.

Por outro lado, o refinanciamento das dívidas dos estados e da dívida dos municípios com o INSS são água benta nos pecados dos políticos. Eles administram mal, dizem que o estado não pode quebrar, e recebem benefícios para ajustar as contas. E quem paga? O contribuinte, seja pessoa física, seja pessoa jurídica.

Está tudo errado. Exige-se e pune-se as empresas para pagarem seus impostos, e facilita-se a má gestão dos administradores públicos, para que as empresas paguem mais impostos, para eles administrarem cada vez pior.

E disso está se falando pouco, porque é mais fácil apertar o garrote destinado às empresas do que melhorar as ações e a gestão pública. E isso leva a um desastre econômico cada vez maior, com uma economia desequilibrada e empresas não só pouco competitivas, mas dependendo cada vez mais de um  estado ineficaz .

Monday, 22 May 2017

DO DIA E DO FUTURO DA INDÚSTRIA MINEIRA

DO DIA E DO FUTURO DA INDÚSTRIA  MINEIRA

Que indústria? A que nos últimos 15 anos, dominada pela liderança de um grupo empresarial só, perdeu 30 (dado da própria entidade da indústria, mas, na realidade, foi muito mais) em faturamento, e em empregos. Minguou. E perdeu o controle e o comando para fora do Estado e do país. Perdeu competitividade e o que sobrou foi sustentado pelos incentivos fiscais para grandes empresas, vindo de fora, ou pela teimosia e falta de opção de milhares de pequenos e médios empresários de origem mineira que persistem, apesar de tudo. É o caso da briga pelo controle e destruição da Usiminas, além da instalação da fábrica mais moderna da Fiat em Pernambuco, como o do endividamento brutal da CEMIG (para pagar os dividendos aos sócios privados e ao estado falido), além do desastre ecológico da SAMARCO (uma das centenas, em área tão sensível para a  economia do  Estado), que só reforçam a tese da crise que existe na indústria mineira. Não no final, pode ser dizer que os campeões na área de engenharia, como AG, foram também campeões da Lava Jato, filhote do Mensalão, começado por agentes publicitários mineiros.

Pode-se a tudo isso juntar a falta mão de obra qualificada no estado para a indústria do século 21, ao mesmo tempo que se excedem projetos megalomaníacos na área de pseudo-tecnologia e testes, que beneficiam os que detêm o poder nas entidades e não a maioria empresarial que está entregue ao seu próprio destino. E também não se pode esquecer uma massa trabalhadora abandonada no desemprego e desespero pelas circunstancias, que não têm oportunidade de requalificação, enquanto a indústria se gaba através de projetos de marketing de sua contribuição social.

Em resumo, a situação em que se encontra  indústria mineira hoje é dramática e a história, como o cumprimento das leis, vai fazer seu julgamento, pela falta de projeto de desenvolvimento em troca de benesses empresariais e pessoais, em estreita  colaboração com políticos  hoje na berlinda judiciaria.

Agora, não é da condenação dos  atores desta  façanha, conhecidos por todos, que se vai construir  uma nova indústria de Minas. Esse é papel da justiça. Mas, o que se precisa urgentemente é, de além de um diagnóstico nos moldes que foram feitos por Fernando Reis e, posteriormente, por Carlos Alberto Teixeira no BDMG, ou por Clelio Campolina, na UFMG, que a nova geração de empresários industriais assuma a estratégia de desenvolvimento industrial de Minas. 

 Não há a mínima possibilidade de desenvolvimento do Estado sem essa mudança de paradigma de liderança e de visão realista. Sem indústria competitiva, baseada em valores éticos, começando pelas lideranças (e vamos lembrar das lições do dr. Nansen Araújo, José Alencar, José da Costa, entre outros) mas com sua atualização tecnológica e inserção internacional, reforçando o capitalismo mineiro e o empresário local, não há nenhum futuro. Deixar como está e continuar com o modelo que empurrou a indústria mineira nos últimos 15 anos para o desastre que estamos presenciando é conscientemente insistir para que alguns maiorais, usando o espaço de liderança, se beneficiem, em prejuízo de milhares de empresas corretas, batalhadoras e que querem crescer junto com a sociedade. O to be or not to be. Hamlet, no reino podre da Dinamarca.

Monday, 15 May 2017

DAS NOVAS RELAÇÕES TRABALHISTAS

Nos dias de hoje, em que estamos abaixo da chuva de granizo da corrupção a toda hora, e discutindo a reforma da previdência como a mãe das reformas da modernização e da estabilidade das finanças públicas, acabamos deixando de prestar a atenção às mudanças nas relações trabalhistas em curso. De um lado, a queda de atividades provocou desemprego brutal no país, na prática totalmente subestimado como um dos nossos principais problemas  no momento, e por outro lado, a necessidade de adaptação rápida das empresas e trabalhadores a essa nova realidade. E nessa realidade inclui-se também a brutal mudança tecnológica, que altera a face das empresas e dos trabalhadores.

Essas mudanças, que são essencialmente culturais, requerem também adaptações de leis e regulamentos. E, sem termos percebido, essas leis foram sendo modificadas. Assim, foi alterada a lei de trabalhos domésticos, nesta semana entra em vigor a lei da gorjeta, veio a lei de terceirização, está sendo editada a lei de imigração  (a nossa estrutura demográfica está mudando e vamos precisar de mão de obra qualificada e jovem no futuro, que virá do exterior, como já acontecia no passado) e não no final, se for aprovada como parece que vai ser, a modernização da CLT.

Esta sim será a grande mudança, que infelizmente não foi resultado consensual das lideranças empresarias (se existem, ao nível nacional, com legitimidade) ou dos trabalhadores (mais preocupados com a Lava Jato do que com os direitos trabalhistas), mas de ação do governo Temer e seus aliados no Congresso. E as mudanças serão fundamentais em uma relação de trabalhadores e empresas, hoje absolutamente arbitrada pelo estado, para uma relação de igualdade, negociável e, vamos dizer, de parceria de sucesso para os dois lados.

Essa relação, que inclui escolha de representante dos trabalhadores nas empresas com mais de 200 funcionários, e negociação livre entre as partes, além de outros 18 pontos, requer urgentemente um preparo de parte a parte para a nova fase. Agora, ou vai se saber negociar e respeitar acordos, ou não haverá paz nas empresas. Os dois lados não estão neste momento preparados para esta fase. A entidade industrial mineira expõe pelo estado cartazes com nomes de deputados que votaram a favor da reforma, mas nada fez para treinar negociadores empresariais e iniciar  as conversas com sindicatos  dos trabalhadores para saber como fazer daqui por diante.

Nas duas área ha mais preocupação com a eventual extinção do obrigatório imposto sindical, aliás o que provavelmente não vai acontecer de forma radical, mas pouca preocupação com o novo modelo de organização sindical. Os sindicatos dos dois lados terão que mudar radicalmente e com eles suas organizações federativas. Acabou-se o que era doce: agora terão que prestar serviços que poucos prestavam.

E a mudança maior será referente à Justiça de trabalho. O arbítrio passa a ser mais o acordo entre as partes do que a justiça. Há cálculo na Justiça do trabalho de que as ações trabalhistas vão diminuir em 50 %. Então o diálogo entre as partes se torna cada vez mais importante e fundamental.

A nova legislação ainda não contempla a organização da fiscalização, que é exercida pelo Ministério de trabalho, outros milhares de normas que não beneficiam o trabalhador e prejudicam as empresas. Ela também não será, a curto prazo, a salvação de empregos, e nem a redução de custos de trabalho. Mas, se as partes se preparem para a transição, o que hoje não está acontecendo, os resultados podem vir mais rápido e melhores para todos.